4 de junho de 2012

Na varanda


“Esse blog só tem texto, texto e mais texto... Nada de imagens?” Não se desespere, leitora: temos agora uma bugiganga eletrônica que faz umas fotos beeem bacaninhas. O melhor de tudo é que o fotógrafo não precisa entender xongas do riscado, que a foto sai ótima. Voilà, uma pequena amostra de nosso recanto.

1 de junho de 2012

De árvores e bichos

Entre um capítulo e outro do livro que estou traduzindo, dou uma voltinha pelo terreno. Os limoeiros estão absolutamente carregados, haja musse de limão e salada pra temperar. O abacateiro tampouco dá trégua: e dá-lhe vitaminas, saladas etc. Mulher e eu já estamos ganhando um tom de pele meio esverdeado. Os dois pés de mexerica, também quase arreando. Dizemos aos vizinhos: entrem, sirvam-se, podem se lambuzar. Em vão. A passarada chega na frente.


Chego perto do abacateiro, ouço um inconfundível farfalhar de folhas, vou ver... é uma cena inédita: quatro tucanos bailando, pra cá e pra lá. Paro para observar durante cinco looooongos minutos. Dois deles fazem seu lanchinho, traçando os frutos que só poderíamos catar com escada de bombeiro.

Ainda o Mundo Animal. Borboletas, saíras, quero-queros, beija-flores e tucanos: nunca eles estiveram a uma distância tão curta de mim, como nestes últimos meses. Cá pra mim, isso tem um significado que está longe de ser coisa rasa. E que não se traduz com palavras, é preciso sentir. Mas paro por aqui, para não estragar o post, tentando dar explicações racionais ao que a vida tem de melhor: os mistérios.

29 de maio de 2012

Cacofonia e humor involuntário

Com fusão, Azul e Trip garantem 15% do mercado nacional”. (Manchete num portal da internet, ontem).


O que me fez lembrar de uma frase mui boa, que ouvi há alguns anos:

"Atenção, senhores pais e responsáveis!" (Chamada feita pelo alto-falante, pela diretora de uma escola, numa festa de fim de ano).

24 de maio de 2012

Estreia

Depois de ter traduzido livros sobre vários assuntos (educação, História, música popular, sociologia, autoajuda etc), dou os primeiros passos num caminho diferente.
Tradução de livros de ficção.

Ueba.

Como de hábito, comentarei a experiência só quando o livro tiver sido publicado. Mas adianto que está sendo pra lá de bacana seguir os passos desta protagonista de 15 anos e toda cheia de problemas.

Agora me deem licença, que vou lá fazer a lição de casa: acompanhar os episódios de Gossip Girl. Só pra não correr o risco de colocar “broto”, “uma brasa, mora!” e quejandos na boca dos personagens teens...

23 de maio de 2012

Smiling Cops

“Policiais londrinos terão de sorrir e acenar ao público durante Jogos Olímpicos”. Portal Terra, 23/5/2012.


No way. Me recuso seguir essa instrução aí.

– Como assim, se recusa?

– Pô, esse pessoal não senso de ridículo? Policial sorrindo e acenando para o público?

– Ué, o que tem de mais?

– O que tem de mais? Estamos na Inglaterra, cara! Hello-ou!

– E daí?

– Meu! E o papo do stiff upper lip, como é que fica?

– ...?

– Ok, sei que na hierarquia você está acima de mim, mas vou refrescar tua memória. Neste país, segundo a tradição, a aristocracia (e todos nós temos um pingo desse sangue azul nas veias) foi treinada durante séculos para ocultar e dissimular as emoções. Se você ri pra alguém ou põe um sorrisão aberto na cara, está mandando um sinal: sou molengão, sou todo emotivo, sentimentaloide, podem me fazer de gato e sapato, que não vou reagir. Entra aí o tal treinamento com o modo correto de posicionar os lábios, coisa e tal. Você acha que nossos antepassados colonizaram metade da África, a Índia e o escambau, e se transformaram num império mundial de que jeito? Distribuindo sorrisos e afagos? Se liga, cara! Foi é na base da carranca, cara feia mesmo. Não tinha pra ninguém.

– Ok, mas isso é coisa do passado...

– Do passado?!? Você por acaso já viu os dentes da Thatcher? Do Blair? Do Cameron? Estilão Clint Eastwood, tough men, todos eles! Mas vê só: não é só político, não. Cunhado meu é professor numa escola. Sabe o que o cara ouve, ainda hoje, no treinamento dos professores, no início do ano letivo? Escuta só. “In class, you must not smile until Christmas and must not laugh until Easter”. Pros caras não irem ganhando confiança. Ah, caso você tenha se esquecido do detalhe: as aulas aqui começam em setembro.

– São outros tempos. Depois do babado com o tal do Jean Charles, nossa polícia não é mais a mesma. Esqueceu da cena do policial todo sorridente, que manda os carros pararem, pras pessoas atravessarem? Tem até um brasileiro, um tal de Caetano Veloso, que retratou isso aí numa música: descrevia lá um colega nosso da polícia, todo satisfeito em ajudar as pessoas.... A música é dos anos 60, mas não importa: afinal, o retrô agora está na moda.

– Mas isso é ridículo, meu! Não existe mais.

– É o que temos. Bom, é isso. Já vai treinando no espelho. Sorriso aberto e acenos ao público. E de modo espontâneo, pra não ficar com cara de miss. E vamos lá, põe aí a farda que daqui a pouquinho já começa o treinamento do pelotão.

– Mas...

– Não tem mas nem meio mas. E vai deixando essa carranca de lado. Ô Johnny, põe aí pra tocar aquela do Chaplin!

(Ao fundo) Smile... though your heart is aching.... smile….



17 de maio de 2012

Sem rodeio (*)

Há instantes, encontrei uma ótima ilustração para meu post de ontem. De Ernani Ssó, escritor, em sua coluna semanal no site Coletiva.net.


“Nos meus tempos de editor, felizmente curtos, me entregaram o romance de um político. Eu devia deixar o texto o mais aceitável possível. Lembro de uma cena, que começava mais ou menos assim: ‘O dia começou a entrar no portal da noite, passo a passo sumindo nas sombras inexoráveis’. Isso continuava por mais umas sessenta linhas. Fiz um xis sobre o parágrafo e anotei: ‘Anoiteceu’. O autor, ao se deparar com minha sugestão, estrilou (...)”

(*) Título alternativo: O Programa Linguiça Zero.

16 de maio de 2012

A (falta de) clareza na escrita

Jornal Brasil de Fato – Nos seus textos, é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?


Antonio Candido - Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico.

***

Defendo que a frase de Antonio Candido (sobretudo a primeira; o grifo é meu) seja colocada em outdoors pelas cidades, em letras garrafais. Que seja veiculada em tudo quanto é mídia, inserida em telejornais, mencionada e comentada pelos professores no início de cada curso, semestre ou ano. Que se torne uma espécie de mantra para todos que lidam com a linguagem escrita.

Isso porque a quantidade de textos obscuros que me têm caído no colo, para revisar, traduzir ou verter para o inglês, tem chegado a níveis alarmantes.

E pensar que estou me referindo, aqui, a indivíduos letrados, com pós-graduações e o escambau...

Mas se têm tal nível de formação, por que tanta obscuridade? Pra que tanto gelo seco no texto (nos shows, ok, cumprem a função de disfarçar visualmente o vazio musical)? Bem, em geral fica nítido que o sujeito não se entende bem com o próprio ego. Aí não tem remédio (Mas tende piedade de nós revisores, Senhor). Muitas vezes, porém, ele simplesmente está ignorando uma regra fundamental para qualquer um que tenha a escrita como ofício: só escreva quando tiver algo relevante a dizer (voilà, acabo de lhes apresentar uma justificativa razoável para os hiatos em meu blog). Caso contrário, aproveite esta excelente oportunidade de ficar calado.