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23 de maio de 2012
Smiling Cops
“Policiais londrinos terão de sorrir e acenar ao público durante Jogos Olímpicos”. Portal Terra, 23/5/2012.
– No way. Me recuso seguir essa instrução aí.
– Como assim, se recusa?
– Pô, esse pessoal não senso de ridículo? Policial sorrindo e acenando para o público?
– Ué, o que tem de mais?
– O que tem de mais? Estamos na Inglaterra, cara! Hello-ou!
– E daí?
– Meu! E o papo do stiff upper lip, como é que fica?
– ...?
– Ok, sei que na hierarquia você está acima de mim, mas vou refrescar tua memória. Neste país, segundo a tradição, a aristocracia (e todos nós temos um pingo desse sangue azul nas veias) foi treinada durante séculos para ocultar e dissimular as emoções. Se você ri pra alguém ou põe um sorrisão aberto na cara, está mandando um sinal: sou molengão, sou todo emotivo, sentimentaloide, podem me fazer de gato e sapato, que não vou reagir. Entra aí o tal treinamento com o modo correto de posicionar os lábios, coisa e tal. Você acha que nossos antepassados colonizaram metade da África, a Índia e o escambau, e se transformaram num império mundial de que jeito? Distribuindo sorrisos e afagos? Se liga, cara! Foi é na base da carranca, cara feia mesmo. Não tinha pra ninguém.
– Ok, mas isso é coisa do passado...
– Do passado?!? Você por acaso já viu os dentes da Thatcher? Do Blair? Do Cameron? Estilão Clint Eastwood, tough men, todos eles! Mas vê só: não é só político, não. Cunhado meu é professor numa escola. Sabe o que o cara ouve, ainda hoje, no treinamento dos professores, no início do ano letivo? Escuta só. “In class, you must not smile until Christmas and must not laugh until Easter”. Pros caras não irem ganhando confiança. Ah, caso você tenha se esquecido do detalhe: as aulas aqui começam em setembro.
– São outros tempos. Depois do babado com o tal do Jean Charles, nossa polícia não é mais a mesma. Esqueceu da cena do policial todo sorridente, que manda os carros pararem, pras pessoas atravessarem? Tem até um brasileiro, um tal de Caetano Veloso, que retratou isso aí numa música: descrevia lá um colega nosso da polícia, todo satisfeito em ajudar as pessoas.... A música é dos anos 60, mas não importa: afinal, o retrô agora está na moda.
– Mas isso é ridículo, meu! Não existe mais.
– É o que temos. Bom, é isso. Já vai treinando no espelho. Sorriso aberto e acenos ao público. E de modo espontâneo, pra não ficar com cara de miss. E vamos lá, põe aí a farda que daqui a pouquinho já começa o treinamento do pelotão.
– Mas...
– Não tem mas nem meio mas. E vai deixando essa carranca de lado. Ô Johnny, põe aí pra tocar aquela do Chaplin!
(Ao fundo) Smile... though your heart is aching.... smile….
– No way. Me recuso seguir essa instrução aí.
– Como assim, se recusa?
– Pô, esse pessoal não senso de ridículo? Policial sorrindo e acenando para o público?
– Ué, o que tem de mais?
– O que tem de mais? Estamos na Inglaterra, cara! Hello-ou!
– E daí?
– Meu! E o papo do stiff upper lip, como é que fica?
– ...?
– Ok, sei que na hierarquia você está acima de mim, mas vou refrescar tua memória. Neste país, segundo a tradição, a aristocracia (e todos nós temos um pingo desse sangue azul nas veias) foi treinada durante séculos para ocultar e dissimular as emoções. Se você ri pra alguém ou põe um sorrisão aberto na cara, está mandando um sinal: sou molengão, sou todo emotivo, sentimentaloide, podem me fazer de gato e sapato, que não vou reagir. Entra aí o tal treinamento com o modo correto de posicionar os lábios, coisa e tal. Você acha que nossos antepassados colonizaram metade da África, a Índia e o escambau, e se transformaram num império mundial de que jeito? Distribuindo sorrisos e afagos? Se liga, cara! Foi é na base da carranca, cara feia mesmo. Não tinha pra ninguém.
– Ok, mas isso é coisa do passado...
– Do passado?!? Você por acaso já viu os dentes da Thatcher? Do Blair? Do Cameron? Estilão Clint Eastwood, tough men, todos eles! Mas vê só: não é só político, não. Cunhado meu é professor numa escola. Sabe o que o cara ouve, ainda hoje, no treinamento dos professores, no início do ano letivo? Escuta só. “In class, you must not smile until Christmas and must not laugh until Easter”. Pros caras não irem ganhando confiança. Ah, caso você tenha se esquecido do detalhe: as aulas aqui começam em setembro.
– São outros tempos. Depois do babado com o tal do Jean Charles, nossa polícia não é mais a mesma. Esqueceu da cena do policial todo sorridente, que manda os carros pararem, pras pessoas atravessarem? Tem até um brasileiro, um tal de Caetano Veloso, que retratou isso aí numa música: descrevia lá um colega nosso da polícia, todo satisfeito em ajudar as pessoas.... A música é dos anos 60, mas não importa: afinal, o retrô agora está na moda.
– Mas isso é ridículo, meu! Não existe mais.
– É o que temos. Bom, é isso. Já vai treinando no espelho. Sorriso aberto e acenos ao público. E de modo espontâneo, pra não ficar com cara de miss. E vamos lá, põe aí a farda que daqui a pouquinho já começa o treinamento do pelotão.
– Mas...
– Não tem mas nem meio mas. E vai deixando essa carranca de lado. Ô Johnny, põe aí pra tocar aquela do Chaplin!
(Ao fundo) Smile... though your heart is aching.... smile….
Luis G.
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24 de abril de 2012
A borboleta azul
Três episódios, uma mesma personagem.
Ano de 1999. Alguns meses depois da morte de meu pai, Tarcísio (mano), Kátia (cunhada) e Dona Chica viajam para a Jureia, levar as cinzas de meu velho. Era o passeio que ele estava querendo muito fazer, e não teve tempo. No lugar, uma mistura exuberante de verde, pedras e mar. No momento em que jogam as cinzas, surge do nada uma borboleta enorme, azul.
Dez anos depois, na chácara onde moramos. Desde que Seu José nos deixou, não tínhamos conseguido reunir todos os (sete) filhos do casal num mesmo almoço. Cada um seguiu seu caminho, três de nós moram fora de Sampa. Naquele sábado, estávamos todos juntos. Saio para o jardim. Ao voltar, abro o portão, e passa adiante de mim uma borboleta azul em voo rasante. Era sua primeira aparição cá no recanto.
Semana passada, varanda de nossa casa. Eu decidira passar adiante grande parte de minha coleção de discos. Entre vinis e cedês, mais de cem discos seguiram caminho. Deixam a poeira da estante para cumprir sua verdadeira função, causar prazer. Um exercício de desapego. Um amigo (colecionador que chega ao ponto de lavar os discos, deixar de molho na bacia etc) veio buscar. Vários discos de música erudita, de MPB, de violão clássico, comprados por Seu José, muito tempo atrás. Fiz a triagem, um por um, me despedindo deles. Sem arrependimento. Pelo contrário: tomado por uma sensação de leveza. Terminada a seleção, quem dá um passeio pela varanda? Claro, ela estava de volta. Com um azul mais brilhante do que nunca.
Sinais do sagrado, que não precisa ser buscado no templo.
Ano de 1999. Alguns meses depois da morte de meu pai, Tarcísio (mano), Kátia (cunhada) e Dona Chica viajam para a Jureia, levar as cinzas de meu velho. Era o passeio que ele estava querendo muito fazer, e não teve tempo. No lugar, uma mistura exuberante de verde, pedras e mar. No momento em que jogam as cinzas, surge do nada uma borboleta enorme, azul.
Dez anos depois, na chácara onde moramos. Desde que Seu José nos deixou, não tínhamos conseguido reunir todos os (sete) filhos do casal num mesmo almoço. Cada um seguiu seu caminho, três de nós moram fora de Sampa. Naquele sábado, estávamos todos juntos. Saio para o jardim. Ao voltar, abro o portão, e passa adiante de mim uma borboleta azul em voo rasante. Era sua primeira aparição cá no recanto.
Semana passada, varanda de nossa casa. Eu decidira passar adiante grande parte de minha coleção de discos. Entre vinis e cedês, mais de cem discos seguiram caminho. Deixam a poeira da estante para cumprir sua verdadeira função, causar prazer. Um exercício de desapego. Um amigo (colecionador que chega ao ponto de lavar os discos, deixar de molho na bacia etc) veio buscar. Vários discos de música erudita, de MPB, de violão clássico, comprados por Seu José, muito tempo atrás. Fiz a triagem, um por um, me despedindo deles. Sem arrependimento. Pelo contrário: tomado por uma sensação de leveza. Terminada a seleção, quem dá um passeio pela varanda? Claro, ela estava de volta. Com um azul mais brilhante do que nunca.
Sinais do sagrado, que não precisa ser buscado no templo.
Luis G.
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13 de abril de 2012
Histórias de mãe
A vantagem de ter uma mãe de 87 anos é a quantidade de histórias que ela tem para contar. Em meu caso, junte-se a isso a bênção de ela não ver graça nenhuma em televisão.
Aspas, então, para Dona Chica Fragoso:
1. “Naquela época, eu tinha 11, 12 anos, e era muito comum as fábricas contratarem menores, tudo debaixo dos panos, claro. Nesta indústria em que seu tio trabalhava, tinha um esquema: a fábrica tinha a entrada principal, e a de trás, que dava para a rua do fundo. Quando chegava fiscal, a meninada já sabia o que fazer. Corria em debandada pra rua, pelos fundos. Horas depois voltavam, e começava tudo de novo, até a inspeção na semana seguinte”.
2. “Com 12 anos, eu trabalhava na tecelagem. Havia dois turnos, 5h às 13h e 13h às 21h. Segunda a sábado. Eu trabalhava no turno da manhã. Eu tinha um amigo que fazia o turno da tarde. No sábado, sempre no sábado, ele matava alguém da família, pra não ir trabalhar. Todo sábado morria alguém”. “Nunca se distraiu e matou a mesma pessoa duas vezes, mãe?”. “Não, ele tomava cuidado com isso”.
3. “Eu era bem pequena, e seu avô, na época, tinha um problema sério nos pés. Muita dor, uma dor terrível. Numa dessas, teve que ficar internado 29 dias num hospital. Contou ele que de noite chegava o médico (ou enfermeiro-chefe, não lembro), na enfermaria onde estavam todos – alguns moribundos, outros em situação melhorzinha. Era negrão, tinha um jeito bonachão. Ao chegar, batia palma pra chamar a atenção do povo e dizia: ‘Vamos lá, pessoal! Quem é que vai morrer esta noite? Quem vai morrer, levanta a mão!”
Aspas, então, para Dona Chica Fragoso:
1. “Naquela época, eu tinha 11, 12 anos, e era muito comum as fábricas contratarem menores, tudo debaixo dos panos, claro. Nesta indústria em que seu tio trabalhava, tinha um esquema: a fábrica tinha a entrada principal, e a de trás, que dava para a rua do fundo. Quando chegava fiscal, a meninada já sabia o que fazer. Corria em debandada pra rua, pelos fundos. Horas depois voltavam, e começava tudo de novo, até a inspeção na semana seguinte”.
2. “Com 12 anos, eu trabalhava na tecelagem. Havia dois turnos, 5h às 13h e 13h às 21h. Segunda a sábado. Eu trabalhava no turno da manhã. Eu tinha um amigo que fazia o turno da tarde. No sábado, sempre no sábado, ele matava alguém da família, pra não ir trabalhar. Todo sábado morria alguém”. “Nunca se distraiu e matou a mesma pessoa duas vezes, mãe?”. “Não, ele tomava cuidado com isso”.
3. “Eu era bem pequena, e seu avô, na época, tinha um problema sério nos pés. Muita dor, uma dor terrível. Numa dessas, teve que ficar internado 29 dias num hospital. Contou ele que de noite chegava o médico (ou enfermeiro-chefe, não lembro), na enfermaria onde estavam todos – alguns moribundos, outros em situação melhorzinha. Era negrão, tinha um jeito bonachão. Ao chegar, batia palma pra chamar a atenção do povo e dizia: ‘Vamos lá, pessoal! Quem é que vai morrer esta noite? Quem vai morrer, levanta a mão!”
Luis G.
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17 de janeiro de 2012
P ou H
– É pê ou agá?
Sou pego de surpresa pela pergunta da velhinha. Feita à queima-roupa, quando eu estava prestes a descer do ônibus.
P ou H? De que catzo ela estará falando? Fiz cara de paisagem e balbuciei um “Como?”
– É pê ou agá, esse ônibus?
Imagine o sufoco por que passa um gringo. Anos a fio estudando o português para, súbito, deparar com uma pergunta dessas.
Em frações de segundo, reviro os arquivos da memória, tentando ligar os pontos e decifrar o enigma.
Cacos de informação: o ônibus está a caminho do campus universitário. P e H. Será uma agrônoma, querendo detalhes sobre acidez do solo, pH, essas bossas? Mas àquela hora da manhã? Improvável. É pê ou agá? Duas linhas e duas rotas diferentes, deve ser isso... Mas que linhas, meu Deus? Joguei a toalha:
– Ahn, não sei direito, precisa perguntar ao cobrador.
Desembarco e reparo na plaqueta por detrás do busão: 701-U.
Nem pê nem agá. Ônibus já acelerando, me contive pra não dar um berro:
– É “U” !!
Como acompanhar o espantoso poder de síntese do cérebro feminino?
Luis G.
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10:32
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18 de novembro de 2011
O dia em que Karl Marx pegou o busão
No ônibus em São Paulo. Distraído, bato o olho na frase do cartaz:
“No trânsito do capital, a preferência é da vida”.
Refeito do assombro inicial, passo a ruminar a mensagem. Num período de breves segundos, acompanho o inusitado percurso da sociologia, que deixa o confinamento da Torre de Marfim acadêmica e se mistura à prosaica rotina do trabalhador. Na volta para casa, cansado da labuta, o cidadão é presenteado, pela prefeitura da metrópole, com uma joia do pensamento sociológico. Pérolas aos povos!
Causa espanto e admiração a capacidade de síntese do autor: a denúncia do capitalismo, da voracidade dos especuladores, da lenta destruição das relações humanas. Poesia, sociologia e ciência política são condensadas numa frase que, destrinchada, renderia dissertação de mestrado.
Súbito, ergo os olhos, noto que o cartaz é uma edição do Jornal do Ônibus. Campanha educativa. Releio a frase, e aí me dou conta do pequeno tropeço na leitura, que me fez – para continuar com a imagem do trânsito – ignorar a “preferencial”:
“No trânsito da capital, a preferência é da vida”.
E assim Marx viveu seu momento de proletário. Um momento breve, já que aristocrata nenhum é de ferro.
Luis G.
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17 de dezembro de 2010
Vida?
Medo do escuro. De monstros. Da Cuca, do Homem do Saco ou do policial que, ameaça nossa mãe, virá nos pegar.
Medo de levar bronca. De precisar repetir o ano. De engravidar. Da primeira transa. De não agradar o grupo.
Medo de não achar emprego. De ser despedido. De que falte grana. De não poder garantir um bom futuro para os filhos. De viver na cidade. De se isolar no campo.
Medo de não ter companhia. De ficar entediado. De não achar um parceiro. De ficar solteirona/solteirão. Dos sorrisos e abraços que alguém dá no marido/na esposa. De broxar. De ser traído. De ser abandonado.
Medo da mudança. Dos desafios.
Medo do inferno. Medo de Deus.
Medo do ridículo. De não ter nada de inteligente a dizer. De não ser lido. De não ser ouvido. De ser ignorado.
Medo de adoecer. De acabar no asilo. Do hospital. Da dor física. Da dor na alma.
Medo da morte.
Isso lá é vida?
Medo de levar bronca. De precisar repetir o ano. De engravidar. Da primeira transa. De não agradar o grupo.
Medo de não achar emprego. De ser despedido. De que falte grana. De não poder garantir um bom futuro para os filhos. De viver na cidade. De se isolar no campo.
Medo de não ter companhia. De ficar entediado. De não achar um parceiro. De ficar solteirona/solteirão. Dos sorrisos e abraços que alguém dá no marido/na esposa. De broxar. De ser traído. De ser abandonado.
Medo da mudança. Dos desafios.
Medo do inferno. Medo de Deus.
Medo do ridículo. De não ter nada de inteligente a dizer. De não ser lido. De não ser ouvido. De ser ignorado.
Medo de adoecer. De acabar no asilo. Do hospital. Da dor física. Da dor na alma.
Medo da morte.
Isso lá é vida?
Luis G.
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7 de dezembro de 2010
Sesc Belenzinho
Nasci e cresci na Água Rasa, muito perto da região onde está o novo Sesc.
Em meus tempos de piá, os filmes eram assistidos nos cinemas de bairro. É nítida, a memória do encantamento com as idas ao Cine Vitória (rebatizado depois: Fontana), na Av. Álvaro Ramos, para ver fitas como Ao Mestre com Carinho. Perto dali, na Moóca, o Cine Ouro Verde, que o mano Marcos e eu frequentávamos de quando em quando. No Tatuapé, Rua Emília Marengo, uma outra sala (o nome me escapa; taí, telegrama do Alzheimer), onde assisti a inúmeros filmes de Mazzaropi.
Criança, e mesmo adolescente, batíamos regularmente o ponto no CERET, também no Tatuapé. Clube mantido pelo governo estadual (estará ainda ativo?).
Pouco a pouco, foram minguando as opções culturais e de lazer desta região da cidade. Lembro da tristeza que me deu, ao acompanhar a construção do primeiro grande shopping da zona leste, o Tatuapé. Olhava para o imenso canteiro de obras e pensava: Meu Deus, outro shopping, por que não fazem um centro cultural, um parque nessa região tão carente de verde, por que a prefeitura não coloca freios nessa especulação insana (a cidade ganhará mais três deles, em 2011)?
O lazer e a cultura foram desaparecendo da zona leste. Cinemas foram confinados aos shoppings (onde o olhar desconfiado dos seguranças é o suficiente para que alguns se sintam excluídos). Que outras opções nos restaram, ali? Está certo, temos ainda o Teatro Artur Azevedo, na Moóca, e o Martins Pena, na Penha, ambos da prefeitura. Mas... a quantas andará a programação nestes locais?
Quando soube que o Sesc comprara o imenso terreno na Av. Álvaro Ramos, ex-propriedade de fábrica têxtil Santista, vibrei. Foram cinco anos de obras. Fui conferir o resultado, no dia da inauguração.
Não pretendia dar um tom piegas a este texto, mas me comovi, e várias vezes, ao perambular na nova unidade do Sesc, no sábado passado.
Saltaram aos olhos a generosidade e a enorme diversidade da programação ali oferecida neste fim de semana. Em dois dias, a zona leste deve ter tido mais opções culturais do que em 30 anos (descontemos, obviamente, o que já ocorre há alguns anos no Sesc Itaquera). Se pensam que exagero, perguntem a algum morador da região.
O melhor de tudo é constatar que este espaço fabuloso, com uma infraestrutura invejável, não faz a menor distinção entre os ricos e os sem-tudo. O Sesc cumpre um papel que, em tese, caberia ao Estado, num país em que as opções culturais privilegiam quem tem grana.
Numa cidade em que as pessoas estão acostumadas a se agrupar em “guetos”, onde nosso espírito “cordial” acoberta comportamentos excludentes, o preconceito, e até mesmo um bem-disfarçado racismo, o surgimento de espaços como o Sesc deve ser acolhido com festa.
Em meus tempos de piá, os filmes eram assistidos nos cinemas de bairro. É nítida, a memória do encantamento com as idas ao Cine Vitória (rebatizado depois: Fontana), na Av. Álvaro Ramos, para ver fitas como Ao Mestre com Carinho. Perto dali, na Moóca, o Cine Ouro Verde, que o mano Marcos e eu frequentávamos de quando em quando. No Tatuapé, Rua Emília Marengo, uma outra sala (o nome me escapa; taí, telegrama do Alzheimer), onde assisti a inúmeros filmes de Mazzaropi.
Criança, e mesmo adolescente, batíamos regularmente o ponto no CERET, também no Tatuapé. Clube mantido pelo governo estadual (estará ainda ativo?).
Pouco a pouco, foram minguando as opções culturais e de lazer desta região da cidade. Lembro da tristeza que me deu, ao acompanhar a construção do primeiro grande shopping da zona leste, o Tatuapé. Olhava para o imenso canteiro de obras e pensava: Meu Deus, outro shopping, por que não fazem um centro cultural, um parque nessa região tão carente de verde, por que a prefeitura não coloca freios nessa especulação insana (a cidade ganhará mais três deles, em 2011)?
O lazer e a cultura foram desaparecendo da zona leste. Cinemas foram confinados aos shoppings (onde o olhar desconfiado dos seguranças é o suficiente para que alguns se sintam excluídos). Que outras opções nos restaram, ali? Está certo, temos ainda o Teatro Artur Azevedo, na Moóca, e o Martins Pena, na Penha, ambos da prefeitura. Mas... a quantas andará a programação nestes locais?
Quando soube que o Sesc comprara o imenso terreno na Av. Álvaro Ramos, ex-propriedade de fábrica têxtil Santista, vibrei. Foram cinco anos de obras. Fui conferir o resultado, no dia da inauguração.
Não pretendia dar um tom piegas a este texto, mas me comovi, e várias vezes, ao perambular na nova unidade do Sesc, no sábado passado.
Saltaram aos olhos a generosidade e a enorme diversidade da programação ali oferecida neste fim de semana. Em dois dias, a zona leste deve ter tido mais opções culturais do que em 30 anos (descontemos, obviamente, o que já ocorre há alguns anos no Sesc Itaquera). Se pensam que exagero, perguntem a algum morador da região.
O melhor de tudo é constatar que este espaço fabuloso, com uma infraestrutura invejável, não faz a menor distinção entre os ricos e os sem-tudo. O Sesc cumpre um papel que, em tese, caberia ao Estado, num país em que as opções culturais privilegiam quem tem grana.
Numa cidade em que as pessoas estão acostumadas a se agrupar em “guetos”, onde nosso espírito “cordial” acoberta comportamentos excludentes, o preconceito, e até mesmo um bem-disfarçado racismo, o surgimento de espaços como o Sesc deve ser acolhido com festa.
Luis G.
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