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10 de julho de 2012

Drops


1. Língua. Numa mensagem de e-mail em que Fulano cobrava o atraso na marcação de um exame laboratorial, Sicrano responde, dizendo: “Solicitamos desculpas pelo atraso, mas já está tudo certo”. Hein?

2. Língua (II). Em minha caixa de e-mails: “Translations XYZ está em busca de tradutores. Os interessados estão convidados a carregar seu CV em www.translationsxyz.com”. Sorte que meu CV não pesa muito, benzadeus.


3. Posologia. Quando você se comunica com uma pessoa via e-mail, e lhe diz algo repetidas vezes em relação a uma postura esquisita que ela vem adotando há alguns meses, e nada parece surtir efeito, como administrar o Simancol? Em gotas, drágeas, ou diretamente na veia?

4. Moda. Num trecho do livro que estou traduzindo, a protagonista, de 15 anos, lá pelas tantas vai encontrar seu paquera, e decide vestir “um top leve que, ao mesmo tempo, é esvoaçante e estruturado”. Uau. Até eu chegar nesta expressão, tive de pular miudinho. E continuo com a sensação de que acabo de verter o trecho para o sânscrito.

1 de julho de 2012

Um livro

Acaba de chegar às livrarias: Guia Lonely Planet – Londres (Ed. Globo), do qual fui um dos tradutores. Um dos desafios mais interessantes que já enfrentei. A sofisticação da linguagem no original é de impressionar. Um belo projeto gráfico, resultando num livro que, além das dicas bacanas que traz, dá gosto de folhear. Taí, se você estiver esquentando as turbinas para acompanhar os Jogos Olímpicos, uma boa pedida.


Em tempo: outro guia desta série sairá nos próximos meses. Na época do lançamento, farei alguns comentários sobre a experiência de traduzi-lo.

28 de junho de 2012

Quinze coisas que você jamais deve dizer a um tradutor


O texto original, em inglês, circulou pelo Facebook, e Madame Min fez a gentileza de traduzir. Roubo dela, pois coisas desse tipo têm de circular.

***

Dez coisas que você jamais deve dizer a um tradutor


1- Tenho um parente que estudou fora seis meses. Vou pedir para ele traduzir esse texto.

2- Por que estudar para ser tradutor quando se pode simplesmente usar o Google Translate?

3- Estudei *língua x,y,z* no ensino médio e queria trabalhar como tradutor.

4- Por que você tem tantos dicionários? Um só não bastava?

5- Demora tanto assim traduzir esse texto? Nem é tão grande assim!

6- Você só sabe três línguas?

7- Por que você não estuda (estudou) *língua x,y,z*?

8- Então você trabalha como tradutor em casa? E isso é emprego?

9- Então você é tradutor... Você faz tradução simultânea, né?

10- O que significa *palavra x,y,z*? Você é tradutor, devia saber!

Ela acrescenta (com o meu endosso):


11- Tradutor? Mas tem faculdade pra isso?

12- Você faz tradução juramentada? Ué? Por que não?

13- Puxa, você está bem de vida, né?

14- Por que você não arruma um emprego de verdade?

15- E qualquer afirmação/pergunta que envolva coisas como *rapidinho*, *quebrar um galho*, *currículo de primo*, *manual de jogo do playstation*, *para ontem*, *para amanhã*, *asap*, *R$0,03/palavra*, *desconto*, *ajudinha*, *dar uma força*, *bico* e, last but not least, *você pode me passar o seu glossário de termos médicos?*

***

Mas se você, colega tradutor, não quiser se chatear diante de uma pergunta destas, fica a minha sugestão. Peça ao sujeito verter as seguintes frases para o inglês:

1- Tradução não é um bico.

2- Tradução não é bico.

24 de maio de 2012

Estreia

Depois de ter traduzido livros sobre vários assuntos (educação, História, música popular, sociologia, autoajuda etc), dou os primeiros passos num caminho diferente.
Tradução de livros de ficção.

Ueba.

Como de hábito, comentarei a experiência só quando o livro tiver sido publicado. Mas adianto que está sendo pra lá de bacana seguir os passos desta protagonista de 15 anos e toda cheia de problemas.

Agora me deem licença, que vou lá fazer a lição de casa: acompanhar os episódios de Gossip Girl. Só pra não correr o risco de colocar “broto”, “uma brasa, mora!” e quejandos na boca dos personagens teens...

2 de maio de 2012

Lost in translation

“A rubbish collector is driving along a street picking up the wheelie

bins and emptying them into his compactor.

He goes to one house where the bin hasn't been left out, and in the

spirit of kindness, and after having a quick look about for the bin,

he gets out of his truck goes to the front door and knocks.

There's no answer.

Being a kindly and conscientious bloke, he knocks again – much harder.

Eventually a Japanese man comes to the door.

"Harro!" says the Japanese man.

"Gidday, mate! Where's ya bin?" asks the collector.

"I bin on toiret," explains the Japanese bloke, a bit perplexed.

Realising the fellow had misunderstood him, the bin man smiles and tries again.

"No ! No ! Mate, Where's your dust bin?"

"I dust been to toiret, I toll you!'' says the Japanese man, still perplexed.

"Listen," says the collector. "You're misunderstanding me. I mean,

where's your wheelie bin?'

"OK, OK. " replies the Japanese man with a sheepish grin, and whispers

in the collector's ear. "I wheelie bin having sex wiffa wife's sista!"



28 de março de 2012

Millôr e as traduções

Ele vai fazer falta. Como homenagem, a lembrança de algumas de suas “traduções televisivas”.

1. Questo oro é di lei? – Isto é ouro de lei?

2. Rez-de-chaussée – O rei do calçado.

3. Consummatum est – Consumação incluída.

4. Cover girl – A moça da cobertura

5. Cogito, ergo sum – Cogito de levantar uma gaita.

6. Dolce far niente – Não tem sobremesa.


Millôr definitivoA bíblia do caos, L&PM, 1994.

18 de março de 2012

Sem piscar

Desafios deste tipo é que fazem a diversão do tradutor. Lembrando que a orientação do editor é tentar manter o texto em português com o mesmo tamanho do original. Em certos casos, tarefa quase impossível. Tenta-se manter o espírito da coisa.

Pois bem, na descrição de uma cidade, aparece lá:

A blink-and-you-missed it town.

Uau.

Diga lá, leitor, a alternativa que lhe soa melhor:

1. Uma micro-cidadezinha

2. Uma cidade minúscula.

3. Uma cidade tipo “piscou, perdeu”.

4. Uma cidade tipo “piscou, já era”.

5. Uma cidade de primeira (engatou a segunda, acabou a cidade).

10 de março de 2012

Submerso

Nestes dias, pensei várias vezes em vir aqui batucar algumas linhas, comentar coisas como, por exemplo, o recente artigo de Luís Giron na revista Época, sobre o trabalho dos tradutores, e a repercussão que o texto tem tido (caso tenha interesse, dê uma espiadela no Facebook, no portal de Denise Bottmann).

Fato é que a tradução bola-da-vez não me deixa pensar noutro assunto. Ao deparar com a sofisticação da linguagem dos autores deste livro, minha primeira reação foi

Pooooooatzzz! Será que consigo encarar?

Mas é esse frio na barriga inicial que me leva adiante. Sempre. Sem ele, seria o tédio total. Santo desafio, Batman!, como diria o menino-prodígio.

Taí, está é apenas uma satisfação a você, teimoso leitor, que insiste em passar por aqui, ver se tem algo de novo. Estou completamente atolado, mas logo volto à superfície. E, mais adiante, falo deste livro e da experiência de traduzi-lo.

31 de janeiro de 2012

A profissão de tradutor

Matéria sobre a profissão de tradutor, no Estadão de hoje, aqui. Há trocentos aspectos que Cedê Silva poderia ter abordado para rechear o texto, mas ok, serviu como aperitivo.

25 de janeiro de 2012

O mau tradutor de manuais

Crônica deliciosa, publicada no guia Divirta-se do Estadão. Compartilho, e pego uma carona: verdade, Belchior tampouco compôs “Medo de aeronave”.
***
Ovni
De Ricardo Freire
“Informamos que devido à mudança de posicionamento da aeronave o seu embarque, quando efetuado, será realizado pelo portão 9.”
Eis uma frase que deixa possesso qualquer passageiro. Mas o que a mim incomoda mais nem é zanzar pela sala de embarque. É ouvir “aeronave” em vez de “avião”. Eu sei, você nem nota. Uma companhia aérea chamar avião de aeronave é a coisa mais natural do mundo. Aposto que de vez em quando você deixa escapar um “aeronave” sem querer.
Quem foi o infeliz que fez isso com você? Provavelmente um mau tradutor de manuais. Os maus tradutores de manuais são os responsáveis pela maioria das palavras mal contrabandeadas para o português. Esse “aeronave” decerto vem de uma tradução de “aircraft”. Em inglês até para entender o porquê de não usarem “airplane” – pode ser que soe “aeroplano”, algo que lembra mais teco-teco do que jato.
Só que em português do Brasil a gente não voa – a gente “vai de avião”. “Aeronave é algo frio e desprovido de charme – o equivalente aéreo de um “automóvel”, ou uma “embarcação”. Tom Jobim não compôs o “Samba da Aeronave”. Uma mulher – perdão – gostosa não é chamada de “uma aeronave”. Quando você quer fazer o nenê comer o papá, você não fala “Olha a aeronavezinha!”.
Tudo bem – eu seu que muita gente tem medo de avião, e que talvez usar um eufemismo possa ser útil nessa hora. Mas desde que a palavra escolhida não lembre justamente “objeto voador”, concorda?
Além do quê, é impossível não ter medo de uma coisa que o tempo todo é “reposicionada”. Por que não trocam o “devido ao reposicionamento da aeronave” por um simples pedido de desculpas? Sugestão: “Atenção passageiros do voo tal. Pedimos desculpas, mas o seu embarque mudou para o portão 9.” Pronto! Perdi o medo!
Eu mantenho o otimismo, porque sou do tempo em que todas as companhias aéreas falavam “é um prazer tê-lo tido a bordo”. Se o tê-lo tido, que parecia ter estabilidade no emprego, já dançou, não é impossível pensar na aposentadoria da “aeronave”.
Um brasileiro inventou o avião, não a aeronave. Os aeroportos não ficarão prontos para a Copa, mas até lá pelo menos podemos voltar a falar “avião”. Vamolá, Brasil!

19 de dezembro de 2011

Fast-forward

“It’s as if we become addicted to the satisfaction of knowing. But that knowing doesn’t last for long. We may know about the why of this, but what about the why of that? Fast-forward and we’re left with the why of the world”.
Trecho do livro que estou traduzindo. Ganha um Christmas pudding caseiro quem conseguir traduzir o verbo sublinhado acima usando menos de quatro ou cinco palavras.
Não paro de me surpreender com a concisão da língua inglesa. Saboroso, isso.
E ainda tem quem acredite que as máquinas poderão fazer nosso trabalho. Tsc, tsc...

14 de dezembro de 2011

Led Zeppelin

Descobri o grupo aos 14 anos, por intermédio de um amigo que era vidrado nos caras. Ele chegava a deixar o cabelo parecido com o de Robert Plant. Botava os LPs pra tocar, e ficava dizendo: “Ouve só isso, cara!”. E eu... “É mesmo, muito bom”. Sem grande convicção.
Enquanto esse meu amigo mergulhava de cabeça no rock’n’roll, o caçula dos Fragoso recebia doses cavalares de MPB em casa. O Led, portanto, nunca fez muito minha cabeça. Diferentemente do Pink Floyd, por exemplo. Banda que sempre me impressionou muito.
Corte. Três décadas mais tarde. Na caixa de e-mails, pipoca o convite do editor: tradução de um livro sobre o Led Zeppelin. Topa?
Eita, como não?!
Prazo apertado, dividimos o bolo da tradução. O resultado, aí está, recém-saído da fornalha:
Whole Lotta Led Zeppelin – A história ilustrada da banda mais pesada de todos os tempos, de Jon Bream (org.). Tradução de Gustavo Mesquita, Anna Paola Monteiro e deste escriba. Editora Agir.

Atualização: estive hoje na livraria em Sampa e folheei o livro. Putisgrila!!! Que maravilha de edição. De encher os olhos. Deu gana de começar a ouvir os caras.

30 de setembro de 2011

Dia do Tradutor

Em tempos bicudos como os nossos, é um bálsamo deparar com gente generosa.

“Para mim, traduzir um bom ou um mau redator dá a mesma satisfação. Tenho prazer em traduzir texto mal escrito. O desafio é maior. A luta é maior. O triunfo, mais saboroso”.

Danilo Nogueira, tradutor. Depoimento dele, em seu blog.

10 de agosto de 2011

O nazareno padece das traduções

“Dizem que, quando Jesus ressuscitou após a crucificação, a primeira pessoa que o viu vivo foi Maria Madalena. Ela o amava imensamente. Correu em direção a ele. O Novo Testamento narra que Jesus disse: ‘Não me toque’. Tenho minhas desconfianças de que ele realmente tenha dito isso. Não parece certo. Alguma coisa está errada aí. Claro que o papa pode dizer: ‘Não me toque’, mas Jesus... é quase impossível. Por isso, tentei pesquisar o original. No texto original, em grego, a palavra pode significar tocar ou apegar-se. Encontrei a chave. Jesus disse: ‘Não se apegue a mim’, mas os tradutores interpretaram como ‘Não me toque’. O intérprete usou a própria mente para a tradução. Jesus deve ter dito ‘Não se apegue a mim’ porque, se existe confiança, não há apego; se há amor, não há apego. Você simplesmente partilha, sem se apegar; partilha em profundo relaxamento.”
A música mais antiga do universo, de Osho. Tradução de Marcos Malvezzi Leal. Verus, 2009.

27 de junho de 2011

A era da ilusão

Um aspecto que me estimula muito, no trabalho de tradução, é a diversidade dos temas. Psicologia, educação, música popular, história, sociologia, auto-ajuda, proliferação nuclear, eis alguns assuntos pelos quais passeei. Descobrir o tema do livro seguinte apenas na véspera só faz realçar o gosto da descoberta.

Acaba de ser lançado o penúltimo que traduzi (em parceria com Elvira Serapicos): A era da ilusão, de Mohamed ElBaradei (Ed. Leya Brasil). Entre 1997 e 2009, ElBaradei foi o Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica, órgão da ONU, e juntamente com a AIEA, recebeu o Nobel da Paz em 2005 por seu trabalho.

Narra sua experiência nos bastidores da política internacional, em países como o Iraque, o Irã, Paquistão e Coreia do Sul. O testemunho do autor contém uma série de elementos históricos que ajudam a desconstruir por completo a farsa montada pelo governo Bush para justificar a Guerra no Iraque. Revela com detalhes a prática deliberada de dissimulação, de fraude, de ocultamento da parte dos governos destes países, no que diz respeito à política de proliferação nuclear (nesse sentido, o título da edição portuguesa do livro, Era da Mentira, tradução de Age of Deception, é igualmente oportuno). Os obstáculos com que depara, em seu trabalho em prol da não-proliferação nuclear, deixam claro os inúmeros interesses dos Estados, mas sobretudo o flagrante desequilíbrio de forças entre os países detentores de energia e armas nucleares e os que não as possuem. Em meio aos interesses conflitantes, a tentativa de conciliação e de isenção da parte da Agência, que embora seja um órgão da ONU, muitas vezes se vê limitada ou mesmo impotente diante do poder dos governos.

Um livro que, além do desafio inerente – um enorme estímulo para qualquer trabalho de (re)criação – trouxe consigo uma considerável dose de responsabilidade: me/nos transformar em veículo de uma voz de grande importância no atual cenário político mundial.


16 de junho de 2011

Dormindo macacos

Motivo clássico de chacota é a tradução de filmes, para cinema ou televisão. Atire o primeiro dicionário quem não contou pra meio mundo o absurdo que leu na legenda, na noite anterior. O índice de deslizes destes profissionais, no entanto, tem sido cada vez menor. Sobretudo no cinema. Em DVD, volta e meia aparece um “eventualmente” completamente deslocado, mas em geral, o nível parece bom. Ok, descontem o fato de que raramente alugo DVDs.
Já na tevê, embora haja incontáveis exemplos de ótimas traduções, em muitos casos adentra-se a terra-de-ninguém. Zapeando dia desses, naqueles momentos em que se alimenta a vã esperança de encontrar algo que preste, topei com um programa chamado Dormindo macacos. Segui adiante. Mas o espectro dos símios continuava a me atormentar. Como assim? Não seria Ninando macacos? Ou Dormindo com Macacos (zoofilia, talvez, vá saber)?  Foi quando tive o clique. Sleeping Monkeys, é claro.
Dia seguinte, cena de filme também na TV. O cara chega no bar, e pede um uísque duplo nas rocadas. Decerto o personagem queria a bebida com gelo, sem água. Sim, você já sacou a expressão dita no original. Guglei, para saber se a expressão é comum em Portugal ou noutras terras. Nenhuma ocorrência de uso.
Na época em que eu lecionava português, colecionava deslizes de revisão dos jornais, aproveitando-os em sala de aula. Exemplos, havia à mancheia. Para além do inevitável riso, o professor de inglês pode muito bem se valer do farto material que a telinha nos oferece de bandeja.  

Lado B
Como contraponto, segue uma declaração de Carolina Alfaro, tradutora e professora de tradução de legendagem, em entrevista a Petê Rissatti.

“A qualidade da legendagem no Brasil é excelente. Os padrões de qualidade estão cada vez mais rigorosos e os clientes são cada vez mais exigentes ao selecionarem seus profissionais. O que não é muito óbvio, sobretudo no caso de DVDs e de canais de TV a cabo, é saber quais traduções são feitas no Brasil e quais vêm do exterior. Os canais Sony, Warner e parte da programação da Fox, por exemplo, são traduzidos fora do Brasil e apresentam graves problemas linguísticos e técnicos. Basta compará-los a canais como Multishow, GNT ou os Telecines para notar a diferença”.


13 de junho de 2011

Drops

Colecionei uma série de notas mentais para a volta. Se enfileirar todas, o post resultará quilométrico – o que, na internet, funciona como espantalho. Segue só uma palinha.

1.       Uma das coisas boas do período de micro-férias é a descoberta de blogs bacanas, como atesta a pequena esticada na lista de links ao lado. Para o internauta à deriva, uma verdadeira perdição. O lado positivo disso é poder desviar o foco, naquele momento do dia em que é vital espairecer, mudar completamente de assunto.
2.      Você, colega de profissão, o que diz quando lhe perguntam o que faz da vida, “Mexo com tradução”, “Trabalho com tradução” ou “Sou tradutor(a)”? Ou n.d.a.? Levei algum tempo para passar da segunda resposta (pulei a primeira, nunca fui muito de mexer) à terceira – ligeira mudança de palavras, mas que caminha par a par com a auto-estima. Mas passei. Resposta que dou de bate-pronto, ainda que eventualmente, como já vi acontecer, ela deixe o interlocutor com cara de paisagem. Taí, divagações a partir da leitura do post “Tradução, sim!”, no site de Petê Rissatti.
3.      Resenha de um livro de Maupassant (O horla, a cabeleira, a mão e o colar, Ed. Artes e Ofícios), no Estadão. São cinco, os tradutores, e o jornal dá o crédito a todos. Alvíssaras!
4.      Pela primeira vez sou tomado pelo forte impulso de, terminada a leitura de um livro, comprar a edição original em inglês, para cotejar com a tradução. Por causa dos erros? Muito pelo contrário. Devido à elegância na reprodução do estilo original e no fraseado, ao cuidadoso equilíbrio entre os registros coloquial e formal. O livro: Solar, de Ian McEwan (Cia. das Letras). Tradução de Jorio Dauster. Lolita, de Nabokov, também traduzido por ele, já tinha me causado uma senhora impressão. O assombro só fez aumentar. Dica: também no site de Petê, uma entrevista com ele.

29 de abril de 2011

Real

Sim, alusão ao (discreto, quase imperceptível) casório que está rolando na ilha, mas o título é pura isca. O assunto é outro. Mas também é o mesmo. A ele.
Ouço Francisco, álbum de Chico Buarque, quando surge o verso
“Que nobreza você tem, que seus lábios são reais...”
Uma parceria de Chico e Vinícius Cantuária, “Ludo real”.
Ainda há os que acham que tradução é bico. Ou que é um bico. Gostaria de vê-los na tentativa de verter a palavra acima pra outro idioma – sem nota de rodapé, e usando uma única palavra.
Já vi quem tentou isso, em francês, e quebrou a cara. Ou, como no verbete do dicionário de Millôr (The cow went to the swamp), "broke the face".

15 de abril de 2011

Tradução e manipulação

“Desde então Jesus começou a pregar e a dizer: ‘Arrependei-vos, pois o reino de Deus está próximo (Mateus, 4)”.

“A verdadeira palavra em hebraico para ‘arrepender’ é teshuvah. Teshuvah significa ‘retornar’ e também ‘responder’. Ambos os significados são belos. Retornar a Deus é responder a ele.
(...)
Ouça a frase, quando eu digo assim: ‘Retorne, pois o reino dos céus está próximo’. Toda condenação, todo pecado e todos os absurdos que criaram culpa no homem desaparecem: apenas com a mudança de uma única palavra traduzida corretamente. Uma única palavra pode ser significativa. Todo o cristianismo desaparecerá se, em vez de ‘arrepender’, a tradução for ‘retornar’. Todas as igrejas, o Vaticano, tudo desaparecerá, porque eles dependem do arrependimento.
(...)
Jesus nunca disse ‘arrependa-se’. Ele teria rido da palavra, porque a coisa toda foi corrompida por esta palavra. As igrejas sabem perfeitamente bem que a palavra é uma tradução errada, mas continuam insistindo nela, porque ela se tornou seu fundamento. Retornar é tão simples: depende de você e de seu Deus; nenhum mediador é necessário, nenhum agente é necessário”.

Osho, Palavras de fogo – Reflexões sobre Jesus de Nazaré, tradução de Anand Samashti, Ed. Verus.


6 de abril de 2011

O passado perfeito

Tem um quê de acaciano, este post, mas vá lá. Para um tempo verbal do passado do inglês, nossa língua apresenta três possibilidades. I had done pode virar eu tinha feito, eu havia feito ou eu fizera. É o três-em-um linguístico.
Taí, a diversão do tradutor. Atentar para a variação. A depender do contexto, caberá mui bem, a terceira destas opções. Embora já extinta da língua oral, é perfeitamente adequada à escrita, e ao registro formal. Eu tinha + particípio, por sua vez, transmite naturalidade, mas seu uso excessivo corre o risco de encher o saco do leitor.
Sem falar dos vários casos em que o “passado perfeito” deles vira passado simples, no vernáculo. Ilustrando: “When he arrived, I had already been here”. Se, ao traduzir, você tascar um “eu já estivera”, dança.
Tropecei inúmeras vezes neste tempo verbal, na mais recente tradução. Um bom motivo para manter afiados, o radar e o ouvido (impiedoso, diante de certas palavras e combinações).
Particularmente saborosa é a sua nomenclatura. “Passado perfeito”. Parece Proust – só falta a madeleine. O português não deixa por menos, e beira o surreal: “Pretérito mais que perfeito”. Transcendeu o próprio Criador. É o passado com um plus a mais, como diria a moçada da publicidade.