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12 de junho de 2012

Dia dos Namorados

Pra mim, sempre foi um mistério que alguém, num dia como o de hoje, fique choramingando pelos cantos por não ter ao lado um(a) pombinho(a). Sofrer de amor pela perda do(a) amado(a)? Tão misterioso quanto.


Eis que, relendo um livro de P. G. Wodehouse, deparo com um trecho oportuno, verdadeiro bálsamo pra quem leva esse tipo de coisa a sério. Nele, Reggie, o narrador, reencontra sua ex-namorada, anos depois. Compartilhando com vocês (texto original: livro sem tradução para o português).

‘Well, fancy meeting you here, Reggie!’

I saw this was the right attitude. After all, the dead past is the dead past. I mean to say, the heavy stuff was over between us. At the time when she had severed relations, the thing had, of course, stuck the gaff into me to quite a goodish extent. I won’t say that I had not been able to sleep or touch food, because I’ve always slept like a log and taken my three square a day, and not even this tragedy could break the habit of a lifetime, but I certainly had felt a bit caught in the machinery. Sombre, if you know what I mean, and unsettled, and rather inclined to read Portuguese Love Sonnets and smoke too much. But I had got over all that ages ago, and we could now meet on a calm, friendly footing.

Laughing Gas, de P. G. Wodehouse, Penguin Books, 1936.



17 de maio de 2012

Sem rodeio (*)

Há instantes, encontrei uma ótima ilustração para meu post de ontem. De Ernani Ssó, escritor, em sua coluna semanal no site Coletiva.net.


“Nos meus tempos de editor, felizmente curtos, me entregaram o romance de um político. Eu devia deixar o texto o mais aceitável possível. Lembro de uma cena, que começava mais ou menos assim: ‘O dia começou a entrar no portal da noite, passo a passo sumindo nas sombras inexoráveis’. Isso continuava por mais umas sessenta linhas. Fiz um xis sobre o parágrafo e anotei: ‘Anoiteceu’. O autor, ao se deparar com minha sugestão, estrilou (...)”

(*) Título alternativo: O Programa Linguiça Zero.

24 de abril de 2012

A borboleta azul

Três episódios, uma mesma personagem.

Ano de 1999. Alguns meses depois da morte de meu pai, Tarcísio (mano), Kátia (cunhada) e Dona Chica viajam para a Jureia, levar as cinzas de meu velho. Era o passeio que ele estava querendo muito fazer, e não teve tempo. No lugar, uma mistura exuberante de verde, pedras e mar. No momento em que jogam as cinzas, surge do nada uma borboleta enorme, azul.

Dez anos depois, na chácara onde moramos. Desde que Seu José nos deixou, não tínhamos conseguido reunir todos os (sete) filhos do casal num mesmo almoço. Cada um seguiu seu caminho, três de nós moram fora de Sampa. Naquele sábado, estávamos todos juntos. Saio para o jardim. Ao voltar, abro o portão, e passa adiante de mim uma borboleta azul em voo rasante. Era sua primeira aparição cá no recanto.

Semana passada, varanda de nossa casa. Eu decidira passar adiante grande parte de minha coleção de discos. Entre vinis e cedês, mais de cem discos seguiram caminho. Deixam a poeira da estante para cumprir sua verdadeira função, causar prazer. Um exercício de desapego. Um amigo (colecionador que chega ao ponto de lavar os discos, deixar de molho na bacia etc) veio buscar. Vários discos de música erudita, de MPB, de violão clássico, comprados por Seu José, muito tempo atrás. Fiz a triagem, um por um, me despedindo deles. Sem arrependimento. Pelo contrário: tomado por uma sensação de leveza. Terminada a seleção, quem dá um passeio pela varanda? Claro, ela estava de volta. Com um azul mais brilhante do que nunca.

Sinais do sagrado, que não precisa ser buscado no templo.





24 de janeiro de 2012

Elogio à dificuldade

Encontro um amigo que, no meio da conversa, faz o comentário:
– Meu emprego está longe de ser meu sonho de consumo, mas... eu ganho bem, e além disso, o trabalho é fácil.
No dia seguinte, o universo me sopra a resposta que eu não dei a ele:
“... Os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-nos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser (...). Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita”.
Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke (trad. Paulo Rónai).

11 de janeiro de 2012

Mais uma coisa...

O plano era que o blogueiro estivesse no meio das férias. Fato é que toda decisão que tomo e toda conclusão a que chego acabam tendo uma validade de, em média, meia hora. Se muito. Taí, o grande barato da vida.
Desta vez rolou um episódio que uma amiga classificaria de hot sync. Partilho contigo, leitor.
Mulher e eu assistíamos à TV Cultura, quando começou a passar um clipezinho educativo. Um casal de jovens pescava e papeava. O rapazote fica indignado com o fato de a empregada ter esquecido de colocar o lanche deles na cesta, algo assim. Uma indignação fake, mas ok. Dali a instantes, a garota começa a adverti-lo sobre o uso correto dos pronomes, que ele tinha empregado. Coisas como “eu o vi”, em vez de “eu vi ele” e quejandos. Passou-lhe um pito para que aprendesse como usar corretamente a língua “em situações formais que pedem o uso da norma culta”.
Isso mesmo. Diálogo que aconteceu durante uma pescaria.
Pasmo total. Assombro. 
Ok. Dia seguinte, estou navegando à deriva na internet, quando deparo com a prova do vestibular que rolara na véspera. Numa das questões da prova de Língua Portuguesa, uma declaração de Monteiro Lobato:
“A correção da língua é um artificialismo, continuei episcopalmente. O natural é a incorreção. Note que a gramática só se atreve a meter o bico quando escrevemos. Quando falamos, afasta-se para longe, de orelhas murchas”.  
Alma lavada, ufa!

1 de agosto de 2011

Dolce far niente

Termino a tradução de mais um livro. Abro o jornal (Estadão de sábado), e lá está: saboroso artigo de Sérgio Augusto, intitulado “A arte de ficar à toa”. Algumas citações do texto:
“São os ociosos que transformam o mundo, porque os outros não têm tempo algum”. (Camus)
“A primeira prova de uma inteligência ordenada é poder parar e aquietar-se consigo mesmo”. (Sêneca)
“Quem não tem dois terços do dia para si é escravo, não importa o que seja: estadista, comerciante, funcionário ou erudito”. (Nietzsche)
Bem a calhar, ótimas epígrafes para mais um período de micro-férias.

21 de julho de 2011

Meia-noite em Paris

De novo, saí de casa sem ler as resenhas. Tinha só a informação de que, diferentemente dos filmes anteriores, a audiência deste filme de Woody Allen tinha subido 12% de uma semana pra outra.
Com menos de 5 minutos, Paris sendo mostrada de vários ângulos, e o jazz onipresente dos filmes do diretor, o filme interno já operava a mil: reconheço esquinas por onde volta e meia eu circulava, lá se vão 15 anos.
Lá pelo meio do filme, um fato inédito pra mim. Uma cena (não digo qual) me leva às gargalhadas (contidas) e me toca profundamente, ao mesmo tempo.
As luzes se acendem, fico até o final dos créditos, ainda numa espécie de transe. No fundo da sala, a funcionária espera nossa saída, com um quê de impaciência. Flashback, ali, para a adolescência, época que eu poderia simplesmente ficar na poltrona, esperando a sessão seguinte. Nunca quis tanto ficar ali, quanto desta vez.
Já na rua, quase no modo automático, a mão vai para o bolso, para ligar o celular. Súbito, paro e mudo de ideia. Tenho flashes da época em que ninguém poderia me encontrar na rua: telefone, somente os fixos, ou então nos orelhões. Deixei desligado. Uma ligação qualquer (e alguém certamente ligaria: era o meu aniversário) acabaria com o encanto, me arrancaria daquele clima, em que eu mal conseguia articular uma frase. Numa hora como esta, ter o silêncio respeitado pelo outro é verdadeiro bálsamo. A volta ao mundo real foi arrastada, demorada.
Gil, o protagonista, viaja ao passado. Fui junto, várias vezes. O mais bacana: voltei completamente em paz.

22 de junho de 2011

Célebres e anônimos

“Enquanto a fama bloqueia e constringe, a obscuridade envolve a pessoa como se fosse uma névoa; a obscuridade é escura, ampla e livre; a obscuridade permite que a mente trace seu caminho sem encontrar obstáculos. Sobre o indivíduo obscuro pousa a impregnação suave das trevas. Ninguém sabe onde ele vai nem de onde está vindo. Ele pode ir em busca da verdade e proclamá-la; ele é o único que é de fato livre; o único que é verdadeiro, o único que experimenta a paz”. Virginia Woolf, citada num post de Braulio Tavares (tradução de...?).

“Jesus disse inúmeras vezes: ‘Os últimos serão os primeiros’. (...) Se você é o último, todos o deixam em paz, ninguém o perturba, você pode ser simplesmente você mesmo. E quando você está disposto a ser o último, pode ficar no presente – do contrário, não. Se você quiser ser o primeiro, terá de ficar no futuro, porque deverá pensar: ‘Como serei o primeiro? Como tirar de lá as pessoas que já estão lá, e arrumar um lugar para mim: Como lutar? Como manejar? O que fazer? O que não fazer?’. Você estará no futuro. Tentar ser o primeiro é viver no futuro: se você quiser ser o primeiro, terá de projetar, se preocupar com o futuro. E de onde tirará suas ideias? Do passado. Assim, você permanecerá no passado e no futuro, mas perderá o presente”. Osho, A flauta nos lábios de Deus (Verus, tradução de Marcos Malvezzi Leal).

16 de maio de 2011

Dos mistérios

Por um instante, coloque-se em meu lugar, caro leitor. Você termina de assistir a um filme, na tevê. Ainda sob o efeito da última cena, ao som de Cole Porter, muda de canal, indo direto pra TV Cultura. Na tela, dá de cara com uma mulher, na varanda da sua casa, falando sobre a obra literária dela e... sobre você.

Cena no estilo Big Brother, não lhe parece?

Breve flashback. Sábado à noite, releio trechos de “Conversations with Woody Allen”. Aumenta a vontade de ver alguns filmes dele, de rever outros. Na tarde do dia seguinte, zapeando pela programação, me dou conta que passarão dois de Allen, A era do rádio e Anything Else. Escolho o segundo.

Última cena do filme, o jovem escritor está no táxi, e o motorista, ao deparar com o rapaz falando sozinho, diz “O quê?”. Resposta: “Nada não, só estava pensando como a vida é cheia de mistérios”.

Foi quando zapeei e dei de cara com a Mulher. Programa Entrelinhas, gravado há alguns meses, cá na roça. Em depoimento intercalado com outros escritores, revela ao público o seu primeiro leitor (baita privilégio, o desse cara, você não calcula).

Uma “sinc” saborosa, que mereceu celebração com um golinho de vinho do Porto.




2 de maio de 2011

Utopia

1.       Eduardo Galeano, escritor uruguaio, no programa Sangue Latino, da TV. Pergunta do entrevistador: “Ainda faz sentido, ter utopias, no mundo de hoje?”. Ele responde com uma historieta contada por um amigo, numa palestra. Historieta e frase que muitos atribuem, equivocadamente, a ele mesmo. “Me dizem: mas a utopia é como o horizonte! Você caminha 10 passos, o horizonte se distancia 10 passos; caminha 20, o horizonte se distancia 20. Pra quê, então, serve a utopia? Ora, serve para isso: para caminhar”.
2.     Horas antes, leio entrevista com Miguel Nicolelis, na revista Brasileiros de abril. Seguida de reportagem sobre o fascinante trabalho desenvolvido por sua equipe no Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmons e Lily Safra, em Natal e Macaíba (RN). Dezesseis páginas, com várias passagens de dar nó na garganta. Do artigo assinado por Nicolelis: “O impossível continua ao nosso alcance. Mas para tornar o impossível em factível, é preciso inovar com a liberdade e ousadia do pensamento mágico das crianças”. Declaração que dialoga diretamente com o que Galeano falava, há instantes, sobre a poesia do universo da criança (aniquilada por aquilo que chamamos de "crescimento" e “desenvolvimento”).
3.      Livro de Nicolelis, a ser lançado em junho (Cia. das Letras), e que já me deixa com a ansiedade de um guri em véspera de Natal: Muito além do nosso eu.




11 de abril de 2011

Musa única

Comovente artigo de Patrícia Palumbo, no jornal de sábado, sobre a música como forma de comunicação com o Divino. Texto que releva uma generosidade rara em relação aos músicos de modo geral – virtude que ela já deixara registrada em seu livro de entrevistas, Vozes do Brasil.

Horas depois, assisto As melhores coisas do mundo, de Laís Bodansky. Filme absurdamente sóbrio, sem a mínima afetação. Nele, a música é quase um personagem e se revela essencial para que os adolescentes consigam comunicar emoções.

Um baita dum blablablá, pode parecer à leitora. Mas para quem está envolvido com música até a medula (e começou a dedilhar o violão ainda na fase teen), essas “sincs” não têm nada de banal.

15 de março de 2011

Sintonia

Trabalhando na tradução de um livro. O maior e mais interessante desafio que já me caiu nas mãos, desde que debutei, doze livros atrás. O assunto, absolutamente tudo a ver com eventos recentes no planeta, que têm ocupado as manchetes dos jornais e telejornais.
E mais não digo, pois cabe aqui uma frase de Hemingway (que adapto ao meu caso): “Um livro sobre o qual você fala é um livro que não será escrito”.  

2 de fevereiro de 2011

Uma entrevista: Carlinhos Brown

“A sociedade brasileira quer, mas ao mesmo tempo tem medo de perder o cabide. Tem um pensamento assim: se nós tivermos uma sociedade de baixo poder aquisitivo escolarizada, educada, quem vai cozinhar pra mim?, quem vai ser a babá? Lá fora você não acha babá, babá lá é baby-sitter e custa 5 mil dólares".

Tirado de uma longa entrevista de Brown. Na íntegra, aqui.

Em tempo: ontem mesmo, no supermercado, assistindo ao garoto afoito, tentando empacotar sozinho as compras de todos os fregueses, me veio a lembrança de que na França e na Inglaterra eu não contava com essa mamata. Tampouco com frentistas em posto de gasolina.

7 de dezembro de 2010

P.S.

Ôpa, esta veio em minha homenagem, um PS ao post desta manhã.

“Ler um post gigante num blog é como escutar sitar. Depois de 5 minutos, ninguém mais aguenta”.

Do Blog do [George] Harrison, em Blogs do Além (link ao lado).