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10 de julho de 2012

Drops


1. Língua. Numa mensagem de e-mail em que Fulano cobrava o atraso na marcação de um exame laboratorial, Sicrano responde, dizendo: “Solicitamos desculpas pelo atraso, mas já está tudo certo”. Hein?

2. Língua (II). Em minha caixa de e-mails: “Translations XYZ está em busca de tradutores. Os interessados estão convidados a carregar seu CV em www.translationsxyz.com”. Sorte que meu CV não pesa muito, benzadeus.


3. Posologia. Quando você se comunica com uma pessoa via e-mail, e lhe diz algo repetidas vezes em relação a uma postura esquisita que ela vem adotando há alguns meses, e nada parece surtir efeito, como administrar o Simancol? Em gotas, drágeas, ou diretamente na veia?

4. Moda. Num trecho do livro que estou traduzindo, a protagonista, de 15 anos, lá pelas tantas vai encontrar seu paquera, e decide vestir “um top leve que, ao mesmo tempo, é esvoaçante e estruturado”. Uau. Até eu chegar nesta expressão, tive de pular miudinho. E continuo com a sensação de que acabo de verter o trecho para o sânscrito.

4 de julho de 2012

Enquete (2)

A trama de Avenida Brasil começa a esquentar. Quando isso acontece, pequenas surpresas e até mesmo reviravoltas inesperadas são muito comuns. Dentre os desdobramentos abaixo, qual lhe parece mais próximo de acontecer, cara leitora?


1. Nina decide fazer um acerto de contas definitivo com seu passado: não irá mais preparar nenhum prato à base de batatas.

2. Suelen, em situação de desespero com sua iminente deportação para a Bolívia, pega carona até São Paulo e, no bairro do Brás, encontra um trabalho de costureira entre seus compatriotas, submetendo-se a jornada de 16 horas diárias e a um salário aviltante.

3. Para desespero de Carminha, Nina inscreve Ágata no concurso Miss Pequena Sunshine Afro, promovido pelo Divino F.C. Para a apresentação, a menina prepara uma coreografia com músicas funk.

4. Max, na fissura total devido à sua “Mega-Sena acumulada” e diante das recusas recorrentes de Nina aos seus convites para acompanhá-lo na sauna, começa a beber de tudo, incluindo uísque nacional, e passa a assediar Zezé.

5. Por indicação de Nina, Tufão começa a ler Grande Sertão: Veredas. Três dias depois, vencido pela linguagem de Rosa, segurando nas mãos dela, na cozinha, admite que está jogando a toalha: “Complicado pa caramba, esse livro, entendeu?”

22 de junho de 2012

Enquete (1)

Você envia uma mensagem de e-mail tratando de um assunto que considera importante, e que envolve certa urgência. Não obtém resposta dentro de um prazo razoável. Por qual das seguintes razões?


a. A pessoa não vê a mínima importância ou urgência no assunto. Afinal, “importância” e “urgência” são conceitos relativos.

b. Para esta pessoa, bom é o papo olho-no-olho (ainda que, no seu caso, isso possa implicar um deslocamento de 80 km), ou via telefone em caso de vida ou morte. Consulta a caixa de e-mails uma vez por semana, e olhe lá.

c. A pessoa é das antigas: preferia que você tivesse lhe enviado uma carta, via ECT, no estilo tradicional. Ou mesmo (que charme!) um telegrama.

d. Ela é ultra-moderna: para ela, e-mail é coisa do passado; agora o papo só rola via Facebook, SMS ou quetais.

e. A pessoa sofre da Síndrome das Noivas: deixá-lo à espera dá um charme extra à situação. E com isso, ela se sente valorizada.

8 de maio de 2012

O show e as lentes

Blogue não é lugar para textos longos, sei disso. Portanto, quando você chegar ao final do primeiro parágrafo, e começar a perceber sua atenção divagando, pare. Copie, cole, imprima, e leia mais tarde, com calma. Verá por que me dei o trabalho de copiá-lo, devagar, saboreando a releitura, pra compartilhar aqui.


***

Perto das lentes, longe do coração

Por Julio Maria (O Estado de S.Paulo, 28/04/2012)

Assim que Paul McCartney aparece, os celulares são erguidos com movimentos automáticos de braços. Milhares de braços. Mais precisamente, 60 mil deles. Grande parte da plateia ali nunca havia visto um beatle antes e o show que este faria em Florianópolis na última quarta-feira era anunciado como o “mais importante da história da cidade”. Os 30 mil lugares do estádio do Avaí estavam tomados por gente vinda de vários lugares. A TV local falou do assunto o tempo todo. A impressão era de que assim que Paul aparecesse, fãs cairiam enfartados. A emoção de ver um beatle por aquelas terras deixaria um rastro de corpos em convulsão etc. Ok, voltemos aos braços.

Assim que Paul aparece, a reação da plateia é uma louvação que termina quando a primeira canção começa. As pessoas erguem os braços agora para filmar, não mais para aplaudir. Certificam-se de que Paul esteja bem centralizado, de que a câmera esteja estabilizada. Checam o zoom, procuram o melhor ângulo. E Paul lá, mandando uma Magical Mystery Tour turbinada, usada na abertura justamente por seu alto potencial de arrebatamento. Arrebata pouco. Vem outra, Junior’s Farm. Sonzeira que fez com os Wings em 1974. Meio lado B, pouca gente conhece, a passividade merece um desconto. A próxima é All My Loving, um petardo dos Beatles disparado em 1963. Agora vai. Grande parte da plateia embarca, outra grande parte não. Quem tem uma câmera na mão o observa com cuidado e olha feio para quem dança ao lado. Se encostarem nele, seu registro treme.

As plateias dos grandes shows estão merecendo um estudo. São no fundo um monte de nós mesmos reunidos para a mais fascinante das celebrações populares, com características próprias que a diferem das duas outras monumentais reuniões de massa no país: o futebol e a religião. Ao contrário do que se passa nos estádios de futebol, em que o apogeu de uma torcida surge na miséria da outra, a comoção de um show não é erguida sobre disputas. O gol é coletivo quando Hey Jude é cantada por 80 mil vozes. E ao contrário do que se passa nos grandes cultos religiosos, em que o encontro fortalece espíritos que buscam salvação, ninguém faz pacto de posteridade com Bob Dylan ou Eric Clapton. Se quiser receber o que eles ofertam, seja bem-vindo. Serão alguns instantes de felicidade em estado bruto e cheios de demonstrações de amor incondicional antes do retorno à vida real. O fã ama seu ídolo como deveria amar todo mundo, com uma entrega eterna e inabalável que nunca pede nada em troca. Quando se une a outros que sentem o mesmo, se vê multiplicado e poderoso.

Só é chato quando filmar um show fica mais importante do que vivê-lo. E eis aqui a característica menos nobre, que também só se vê em plateias musicais. Ninguém vê um torcedor filmando um jogo de seu time do coração ou um fiel centralizando o padre em sua câmera durante a homilia pela simples razão de que, ali, nada é mais importante para eles do que aquele instante. Se é possível filmar e absorver ao mesmo tempo? Não. Impossível experimentar a plenitude de uma A Day in the Life com uma câmera nas mãos e um ímpeto narcisista na cabeça. Muita gente filma para provar aos amigos que esteve lá. Se sorveu cada segundo daquele momento fazendo com os olhos e o coração uma edição de imagens que câmera nenhuma poderia fazer, não importa. Sua câmera assistiu a um grande show.



19 de março de 2012

Caronas Inteligentes

Soube deste serviço há alguns dias, por uma matéria veiculada no canal GloboNews. Para quem vê o trânsito de uma cidade como São Paulo caminhando a passos lentos e seguros na direção do caos total, é um bálsamo descobrir iniciativas como esta. Que devem ser compartilhadas.

O site é este aqui, o Caronetas – Caronas inteligentes. Basicamente, um serviço de caronas urbano. O usuário se cadastra na página da internet deles e, quando quer oferecer uma carona, coloca a informação no site. Quem deseja pegar carona, faz a procura também pelo site.

Exemplo hipotético: se estou na Vila Madalena e vou diariamente para meu escritório na Vila Olímpia, me basta digitar o CEP da rua onde moro e o CEP da rua do destino. Na hora, fico sabendo se tem alguém que faz o mesmo trajeto, e que more perto de mim.

Tudo gratuito. Não se gasta um centavo para o registro. Há empresas patrocinando o site, entre elas o Banco do Brasil e a TAM. Detalhe: aparentemente, pessoas físicas não podem fazer o cadastro, apenas empresas. Não ficou claro, porém, se micro-empresas também podem se cadastrar. Tudo indica que não há empecilho algum.

A reportagem da TV deu as estatísticas: o serviço já tem 800 empresas cadastradas, com 20 mil empregados podendo usufruir das caronas.

Achei uma sacada genial, a iniciativa. Que me trouxe boas lembranças de um serviço semelhante que usei, muitos anos atrás, indo de carona de uma cidade a outra, no interior da Alemanha. Pequena diferença: lá, precisei dar uma pequena ajuda de custo ao motorista, para o combustível. No Caronetas, custo zero.

Em tempo: não estou ganhando um tostão com esta divulgação. É puro entusiasmo. E olhe que nem moro nesta cidade!

Gostou do que leu? Então, compartilhe!

10 de março de 2012

Submerso

Nestes dias, pensei várias vezes em vir aqui batucar algumas linhas, comentar coisas como, por exemplo, o recente artigo de Luís Giron na revista Época, sobre o trabalho dos tradutores, e a repercussão que o texto tem tido (caso tenha interesse, dê uma espiadela no Facebook, no portal de Denise Bottmann).

Fato é que a tradução bola-da-vez não me deixa pensar noutro assunto. Ao deparar com a sofisticação da linguagem dos autores deste livro, minha primeira reação foi

Pooooooatzzz! Será que consigo encarar?

Mas é esse frio na barriga inicial que me leva adiante. Sempre. Sem ele, seria o tédio total. Santo desafio, Batman!, como diria o menino-prodígio.

Taí, está é apenas uma satisfação a você, teimoso leitor, que insiste em passar por aqui, ver se tem algo de novo. Estou completamente atolado, mas logo volto à superfície. E, mais adiante, falo deste livro e da experiência de traduzi-lo.

17 de fevereiro de 2012

De escolas e penitenciárias

Faz pouco tempo que atinei pra essa mudança. Na época em que filhote passou para a 5ª série. Ao observar o padrão de comportamento do sono de uma pessoa em fase de crescimento, você nota que à medida que seu corpo cresce, as horas e qualidade de seu sono passam a ser cada vez mais importantes (lembro hoje de minhas siestas de looooongas horas, durante toda a adolescência; meus pais, um casal iluminado, me poupavam das trocentas atividades "extra-curriculares", que me "preparariam para o futuro". Intuíram: fora da escola, "o cara precisa brincar".) Pois bem. O sujeito completa 11 anos, e o que decidem os sábios responsáveis pelo sistema educacional? O aluno, que até então estudava no período da tarde, tem o horário invertido: deve agora madrugar. Enquanto isso, os menores entre 4 e 10 anos pulam da cama com toda a energia do mundo às 6h da matina, para fazer o quê, até a hora de ir para a escola? Nada, claro, a não ser azucrinar os pais.


São provas suficientes de sadismo, ou você quer mais exemplos? Tem mais.

Neste “segundo lar” (há quem use tal expressão, ainda?), o aluno convive, durante 11 anos, com um léxico pra lá de revelador. Alguns exemplos: disciplina, inspetor, delegacia (de ensino), grade (curricular). Não é uma beleza, a semelhança com o vocabulário das prisões? Se contratar alguns carcereiros e permitir aos detent... ops, aos alunos a fabricação de terezas, se instalar algumas redes eletrificadas por cima dos muros (em muitos casos, a altura já é adequada) e algumas guaritas... voilà, a distinção entre escola e casa de detenção será mínima. E podem contar: não demora, surge alguém dando a ideia de alterar o nome do intervalo, de recreio para hora do banho de sol.

Agora, é torcer pra que não adotem a revista íntima e o uso da tornozeleira.

25 de janeiro de 2012

O mau tradutor de manuais

Crônica deliciosa, publicada no guia Divirta-se do Estadão. Compartilho, e pego uma carona: verdade, Belchior tampouco compôs “Medo de aeronave”.
***
Ovni
De Ricardo Freire
“Informamos que devido à mudança de posicionamento da aeronave o seu embarque, quando efetuado, será realizado pelo portão 9.”
Eis uma frase que deixa possesso qualquer passageiro. Mas o que a mim incomoda mais nem é zanzar pela sala de embarque. É ouvir “aeronave” em vez de “avião”. Eu sei, você nem nota. Uma companhia aérea chamar avião de aeronave é a coisa mais natural do mundo. Aposto que de vez em quando você deixa escapar um “aeronave” sem querer.
Quem foi o infeliz que fez isso com você? Provavelmente um mau tradutor de manuais. Os maus tradutores de manuais são os responsáveis pela maioria das palavras mal contrabandeadas para o português. Esse “aeronave” decerto vem de uma tradução de “aircraft”. Em inglês até para entender o porquê de não usarem “airplane” – pode ser que soe “aeroplano”, algo que lembra mais teco-teco do que jato.
Só que em português do Brasil a gente não voa – a gente “vai de avião”. “Aeronave é algo frio e desprovido de charme – o equivalente aéreo de um “automóvel”, ou uma “embarcação”. Tom Jobim não compôs o “Samba da Aeronave”. Uma mulher – perdão – gostosa não é chamada de “uma aeronave”. Quando você quer fazer o nenê comer o papá, você não fala “Olha a aeronavezinha!”.
Tudo bem – eu seu que muita gente tem medo de avião, e que talvez usar um eufemismo possa ser útil nessa hora. Mas desde que a palavra escolhida não lembre justamente “objeto voador”, concorda?
Além do quê, é impossível não ter medo de uma coisa que o tempo todo é “reposicionada”. Por que não trocam o “devido ao reposicionamento da aeronave” por um simples pedido de desculpas? Sugestão: “Atenção passageiros do voo tal. Pedimos desculpas, mas o seu embarque mudou para o portão 9.” Pronto! Perdi o medo!
Eu mantenho o otimismo, porque sou do tempo em que todas as companhias aéreas falavam “é um prazer tê-lo tido a bordo”. Se o tê-lo tido, que parecia ter estabilidade no emprego, já dançou, não é impossível pensar na aposentadoria da “aeronave”.
Um brasileiro inventou o avião, não a aeronave. Os aeroportos não ficarão prontos para a Copa, mas até lá pelo menos podemos voltar a falar “avião”. Vamolá, Brasil!

19 de janeiro de 2012

Uma entrevista com Drummond

Entrevista com Carlos Drummond de Andrade, por Nanete Neves, em 1977. O poeta tinha 75 anos. Retirada daqui.
1.  O que a vida lhe ensinou até agora?
Creio que a vida terá me ensinado o que normalmente ensina a qualquer um: a abrir mão de determinadas ilusões, a olhar com maior indulgência as pessoas, a buscar compreender melhor os fatos. Um misto de indulgência e desencanto. Acho que consegui mais ou menos este resultado, sem renunciar a alguns valores básicos: o respeito à personalidade humana e o amor à liberdade. Não estou me gabando disto. Estou rendendo graças à vida, que não me levou a abrir mão desses valores.

2. Qual a fórmula para se viver aparentemente afastado dos outros, e ao mesmo tempo mostrar no que escreve uma participação e observação tão ativas?
Não me considero afastado dos outros, mesmo aparentemente. Saio invariavelmente à rua todos os dias, sou encontrável no ônibus, na livraria, no café, no papo de rua, na Biblioteca Nacional e pelo telefone. Apenas não apareço em festas e reuniões, que me atordoam um pouco. E se não recebo muito em casa, é porque ela é também meu local de trabalho. E me comunico com muitos amigos, leitores e estudantes, por meio de cartas. Gosto de responder cartas, acho isso uma obrigação natural. Além disso, mantenho há 23 anos uma coluna de jornal, o que é uma forma de conversar com o maior número de pessoas ao mesmo tempo. Pessoas que tanto aprovam como desaprovam o que lhes digo, e que costumam exprimir suas reações. Acontece que muita gente pensa que devemos estar sempre de plantão para atendê-las. Infelizmente a vida não é desta opinião, e limita com avareza as nossas horas.

3.  O poeta Drummond acredita que os jovens estejam se afastando da literatura?
Não tenho elementos para afirmar ou negar que os jovens estejam se afastando da literatura. Se eles lêem pouco, pelo menos vivem muito a vida intensa de hoje. E o que está mais ao alcance deles é a imagem e o som, não a letra impressa. Há um problema de ensino, um problema de educação, um problema de economia, um problema de ordem social, tantos problemas em torno da questão jovem e leitura. Eu penso que nós não estamos sabendo o que fazer diante da juventude, e ela muito menos sabe o que vai fazer. O caso da leitura é só um detalhe da imensa questão geral. E se os mais velhos reciclassem a sua sabedoria?

4.  Qual a sua mensagem aos jovens de sua nação?
Não tenho mensagem alguma para os moços. Não sou político nem educador nem reformador. Eu gostaria de ser moço também, mas não gostaria de receber mensagens dos velhos.
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7 de dezembro de 2011

Sócrates

– Desculpe perguntar, mas você não é...
Ao ouvir as primeiras palavras, eu já completo:
 ... parente do Sócrates?
Morando em SP, eu costumava ser abordado nas ruas com esta pergunta, em média, uma vez por semana. À medida que os anos iam passando, a semelhança aumentava, e o número de abordagens idem. Claro que eu não me chateava. Muito pelo contrário. Taí mais uma excelente razão pr’eu manter a barba. Notarem semelhança física entre o que vejo no espelho e um cara da estatura do Magrão... putz, quer coisa mais bacana que isso?
Palmeirense naquela época (hoje, meu apego a times é nulo; minha torcida é pelo futebol bonito), eu acompanhava Sócrates e o Corinthians meio à distância, mais atento aos seus gols e principais lances. Curtia seu jeito cool de comemorar os tentos (curiosamente tido, por alguns, como atitude de jogador “mascarado”).
Embora, politicamente falando, eu ainda engatinhasse, percebi a enorme importância do movimento que ele, Casagrande e outros lideraram no Corinthians, a “Democracia Corintiana”, para o contexto político da época. Por exemplo, Sócrates se opunha abertamente às famosas “concentrações” dos jogadores, na véspera das partidas, o que equivaleria, na visão dele, a “tratar os atletas como incapazes, como criancinhas sem responsabilidade”.
Tive novo encanto ao descobrir os textos do Doutor, na revista CartaCapital. Dono de senso crítico aguçado, sua coluna semanal trazia um estilo elegante e um texto denso, mas sem pompas. Volta e meia, ilustrava opiniões com seu amplo repertório de leituras, sempre contextualizado e a serviço da argumentação. Nenhuma demonstração de falsa erudição. Durante anos, escreveu crônicas que refletiam a mesma categoria de suas passadas em campo e de seus toques de calcanhar.
Torço agora para que uma biografia do homem seja publicada em breve (só nos poupem de caça-níqueis editados às pressas, por favor!), que algum jornalista (além de Juca Kfouri, algum forte candidato?) lhe preste uma homenagem à altura, de preferência numa bela e luxuosa edição. Sem a pretensão de santificá-lo (atitude de praxe com os que morrem, neste país), apenas mostrando sua dimensão humana. Um livro que narre a trajetória de um jogador cuja postura, dentro e fora de campo, despertou a admiração de tanta gente, corintianos ou não (Sócrates Brasileiro Sampaio etc: o próprio nome transcendia a divisão entre torcidas). De um cara que, apesar – ou por causa – do status de ídolo, sempre esteve atento para não permitir que o próprio ego o sufocasse. Afinal, oportunidades para criar uma percepção de si mesmo como acima dos mortais, ele teve de sobra.
Em tempo: o Cartão Verde de ontem, na TV Cultura, foi possivelmente a homenagem mais linda que Sócrates poderia ter recebido. E sem a mínima pieguice. Se o programa estiver no YouTube, não deixe de ver.
Valeu, Magrão!

5 de dezembro de 2011

Drops

Corinthians campeão. Assisti aos 90 minutos do jogo final contra o Palmeiras sem som. Só as imagens e, no fundo, os urros do vizinho. Experimente quando puder: sem a histeria toda, tudo fica infinitamente melhor.
Universo feminino (1). Restaurante em S. Lourenço. Cena que eu não via há pelo menos vinte anos. Duas amigas almoçam juntas. Súbito, uma delas faz um comentário que faz a outra dar uma deliciosa gargalhada, daquelas de jogar a cabeça pra trás. Nota que merece registro: espiei na mesa, e não havia cerveja, vinho, nenhum estimulante alcóolico. Um riso espontâneo.
Universo feminino (2). Num restaurante de Sampa, almoço de colegas da firma, dois homens e uma mulher. Reproduzo uma fala da mulher, sem intromissões de revisor: “Prefiro trabalhar com quarenta pião de obra do que ter que trabalhar com mais duas mulher na sala”.

22 de novembro de 2011

Jogos de tabuleiro

Imagine um jogo que estimula a linguagem, sem a preocupação de ditar o que é certo ou errado, no uso da língua. Um jogo premiado em vários países, com regras muito simples (explicitadas em oito idiomas), e com um visual de encher os olhos. E que, além disso, lhe permite conhecer um pouco melhor os adversários – tendo grande valia, portanto, quando utilizado pelas empresas (na seleção de candidatos, por exemplo) para a identificação de características pessoais. Pois bem, este jogo existe: Dixit.
As regras. O jogo contém 84 cartas, com imagens. Oníricas. E um tabuleiro, em que cada jogador avança nas casas, com seus coelhinhos, até o número 30, à medida que ganha os pontos. Seis cartas são distribuídas para cada um. Na primeira rodada, um jogador escolhe uma de suas cartas, sem mostrá-la aos demais, e diz algo que tenha relação com esta imagem: pode ser uma única palavra, uma frase, um verso de uma canção. Os outros jogadores escolhem, dentre suas próprias cartas, uma imagem que mais se aproxime da palavra/verso/frase dita pelo primeiro. Este recolhe todas as cartas (ideal jogar com 6 pessoas; 3 é o número mínimo), as embaralha, e recoloca na mesa. Agora, é o momento das apostas: qual terá sido a carta do primeiro jogador? Todos apostam com uma ficha numerada. Pontuará, avançando com o coelhinho, aquele que adivinhou, relacionando a frase à carta certa. Porém, também pontuam (com menos pontos) aqueles em cujas imagens os demais jogadores apostaram. Se todos descobriram a carta certa (a frase/palavra foi óbvia demais), ou se ninguém descobriu (foi enigmática demais), o primeiro jogador não pontua.
O grande barato, no Dixit, é a oportunidade de, por meio da brincadeira, descobrir facetas das pessoas com quem se joga. Traços de personalidade que vêm à tona: 1) a capacidade de abstração: já que nenhuma das imagens tem correspondência direta com a realidade, elas evocam diferentes ideias em cada um. Há os que tentam, numa frase, explicar exatamente o que estão vendo. Outros “viajam” completamente. Alguns são sutis, outros mais óbvios, quase didáticos. Outros, ainda, se equilibram num invejável meio-termo; 2) a afinidade de percepção entre determinados jogadores: numa das vezes em que jogamos, o índice de acerto, no caso de dois deles, coincidiu em cinco rodadas consecutivas; 3) a sutil interferência do ego. Quando alguém escolhe um nome/título que pertence ao seu universo cultural do qual, entretanto, os demais jogadores não compartilham. Por exemplo, um músico fora do “mainstream” ou um filme antigo; 4) concisão vs. incontinência verbal. Ou seja, a maneira como cada jogador se expressa: de modo lacônico, enxuto ou soltando o verbo.
O sucesso do jogo, de origem francesa, foi tamanho que as lojas oferecem um conjunto extra de cartas. Numa caixinha vendida separadamente, há 84 imagens adicionais.
Onde encontrar o Dixit? Em Pindorama, esqueça; por aqui, paramos no Banco Imobiliário e no War. Você o acha no site da Amazon, ou então nesta loja virtual.

3 de agosto de 2011

Mistérios

Em meio à infinidade de livros e discos sobre os quais se pode opinar, e cujas qualidades podem ser destacadas, o que leva determinados resenhistas a escolher um para descer o sarrafo?

4 de julho de 2011

Em trânsito

Saio da réplica de iglu que virou nossa casa no campo, e caio numa Sampa ainda mais gelada. “Vocês brasileiros não levam o inverno a sério, principalmente quando constroem suas casas”, o sábio comentário de um europeu.
Mas é um bater de dentes transitório. Na 4ª, sigo para Paraty, onde a Mulher e eu acompanharemos a Flip e a Flipinha.
Quem sabe, de outra latitude e rodando sobre paralelepípedos, este blog engata uma segunda marcha?

20 de junho de 2011

Interatividade

Em texto recente, Braulio Tavares compara a internet àquele microfone que é colocado à disposição da plateia, para perguntas em palestras e debates. Ali, tendo agarrado o microfone, o cidadão o não larga mais, contará uma história bem triste e mais metade de sua vida antes de fazer a pergunta, nem aí se os demais estão lhe dando ouvidos. Assim é a internet, diz Braulio, bilhões falando, tendo ou não audiência. Dentre eles, claro, o blogueiro que batuca estas linhas.

É a tal interatividade, que veio para ficar. Em telejornal ou talk show, programa sobre música, esporte, política ou culinária, não importa: o ouvinte/espectador terá voz e participação – isso quando não rola no teatro, onde você, quietinho no seu canto, é chamado ao palco para contracenar, sapatear etc. E dá-lhe “Sou fã número 1 do seu programa”, “Onde é que vamos parar?”, “É uma vergonha, esse país”, e platitudes do gênero.

O último bastião de resistência talvez seja o cinema. Tirante uma ou outra exceção (o assento atrás do seu é sempre um lugar de potencial perigo), ainda é possível assistir um filme de cabo a rabo sem saber a opinião do público. Mas é prudente não fazer alarde: não demora, um gênio da raça institui o intervalo no meio da sessão, com direito a debate – com o diretor, roteirista, montador, o diabo – e microfone para as intervenções da plateia. No que será imediatamente imitado. Somos um povo novidadeiro, afinal.

Outro dia, carreta tombada na rodovia fez o tráfego parar completamente. Cinco segundos após o motorista do ônibus desligar o motor, dezenas de mãos se agarraram aos celulares: “Benhê, tá tudo parado!”, “Amor, vou demorar, sem previsão” e por aí vai. Quem não tinha celular soltava uma lamúria, daquelas que sempre encontram eco no passageiro ao lado. Todos interagindo.

Carência? Talvez. Ou quiçá uma incapacidade crônica: fechar a matraca.

17 de junho de 2011

Summerhill

Volta e meia recebo, via e-mail, mensagem de pessoas interessadas nesta escola inglesa. Estudantes de Pedagogia, em geral. Isso porque escrevi, no blog antigo, alguns posts sobre minha visita à escola. Aqui, um breve relato, que foi dividido em duas partes.
Summerhill, uma senhora que neste ano completa 90 anos de idade, e com muita energia, ainda é vista como um lugar exótico, como uma experiência isolada dentro de uma ilha, e que não deu certo. Tal imagem, difundida em certos meios acadêmicos e também no mercado editorial, revela um misto de falta de informação e mero desinteresse. Isso porque Summerhill não está sozinha: existe um número crescente de escolas democráticas em todo o mundo, estabelecimentos que apostam e investem na capacidade da criança de tomar decisões, de agir com autonomia e de assumir responsabilidades (curiosamente, a Alemanha é um dos países que abrigam mais escolas desse tipo). A experiência desse tipo de escolas é descrita de maneira mais aprofundada por Helena Singer, no livro República de Crianças (Hucitec).
Em São Paulo, um exemplo vivo deste tipo de ensino não-tradicional é o Instituto Lumiar, que mantém uma escola na capital paulista, e outra em Santo Antônio do Pinhal. Escolas cuja proposta vale muito a pena conhecer, tendo em vista que o idealizador do instituto é Ricardo Semler (recomendo vivamente não só uma visita à Lumiar, como os seus livros e sua coluna quinzenal na Folha. Este livro é um ótimo ponto de partida). Merece especial atenção uma escola da rede pública municipal paulistana: EMEF Amorim Lima, no Butantã – inspirada na concepção da Escola da Ponte, em Portugal (Rubem Alves escreveu este belíssimo livro sobre ela), e com a qual mantém parcerias para o desenvolvimento de projetos.
O ensino tradicional vive uma crise sem precedentes, em grande medida devido à ingênua crença de que se pode manter o mesmíssimo modelo de escola de dois séculos atrás. Porém, experiências como as descritas acima me fazem acreditar na viabilidade de um projeto educacional por meio da escola.
Em tempo: seguem outras dicas preciosas de leitura, não apenas para educadores, mas para psicólogos, pais e qualquer um que se interesse pelo desenvolvimento integral da criança, e que tenha a humildade de reconhecer há muito a ser aprendido com a sabedoria delas.
1.       Quando eu voltar a ser criança, de Janusz Korczak (Summus).
2.      A obra de A. S. Neill, com destaque para o clássico Liberdade sem medo (Ibrasa).
3.      A free-range childhood – Self-regulation at Summerhill School, de Matthew Appleton (que traduzi, mas ainda aguarda publicação), uma excelente referência para quem deseja saber mais sobre a escola fundada por Neill. Neste post, transcrevo breves trechos do livro de Matthew, que trabalhou como houseparent na escola durante muitos anos.
4.      Matéria sobre Neill, publicada na revista Nova Escola, especial Grandes Pensadores (edição de outubro de 2008).

10 de junho de 2011

Voltando...

O plano inicial era retornar em julho. Mas me dou o direito sagrado de mudar de ideia a cada meia hora. Motivos que me levam à decisão? Aí vão alguns.

1.       A entressafra de trabalhos acaba de terminar. E nada como fazer o blog acompanhar o ritmo de vida normal.
2.      O número de cenas cotidianas (fragmentos de livro, filmes etc) dignas de um mínimo registro, por aqui, nunca foi tão grande como nessas duas semanas.
3.      Já disse isso, há algum tempo. Ainda na casa antiga. No que diz respeito à minha profissão, já entrei na fase em que tenho dificuldades para distinguir, em inúmeras situações, trabalho, estudo e lazer. Com isso, o próprio significado de “férias” fica comprometido.
4.      Distanciar-se do blog traz a inevitável pergunta: sinto falta de escrever? A resposta pode mudar a qualquer momento, mas por enquanto é um sonoro sim.

Portanto, segunda-feira tem post novo. Até lá.

19 de maio de 2011

Memórias póstumas

“Nunca pensei que uma casa sem telefone e internet pudesse levantar suspeitas. Isso no Brasil é tão comum, principalmente para aqueles que assinam esses serviços”.

Do Blog do Bin Laden (Blogs do Além).

24 de abril de 2011

Na pele de Cadão Volpato

Para quem não sabe, além de músico (ex-Fellini) e escritor, Cadão é editor e apresentador do programa Metrópolis, da TV Cultura. Volta e meia atua como mediador em bate-papos literários.

Eu queria estar em seu lugar. Num programa diário de uma hora, traz as novidades do cinema, teatro, literatura, artes plásticas, música etc. Habilidoso ao conduzir as prosas, as perguntas de suas entrevistas demonstram um genuíno interesse, e quase nenhum traço de afetação (cena cada vez mais rara em programas do gênero). Antenado em todas estas áreas, está em contato direto com o biscoito fino da produção cultural do país.

Eu não queria estar em seu lugar. Assisto regularmente ao programa, mas nunca de cabo a rabo. Para fugir de uma overdose. Ecos da canção de Caetano, fim dos anos 60: “Quem lê tanta notícia?”. Dia desses, outro programa de TV trouxe o depoimento de uma mulher que, por dever profissional, ouve cerca de 300 músicas por dia. Me imagino nesse ritmo, e já tenho uma ligeira vertigem. Encontro alento nos versos de Paulinho Nogueira: “...duvidar, então, do que querem fazer você olhar, fazer você ouvir, fazer você pensar...”.

Estivesse eu na pele de Cadão... curtiria, decerto. Só resta saber quanto tempo demoraria pra ter de dar entrada numa clínica de desintoxicação cultural.




18 de abril de 2011

Da escola, de síndromes e quetais

Não basta que o cidadão padeça durante seis horas diárias no banco escolar. (Eu disse “seis”? Por enquanto, pois a moda que começa a pegar é escola em tempo integral. Quanto mais longo o período em que os pais puderem estacionar os filhos, melhor). Seis horas é pouco: é preciso mantê-los ocupados, fora da escola. E dá-lhes um caminhão de tarefas (além do judô, inglês, computação, natação, teatro e do escambau), até mesmo nas férias.

Você completa 11 anos, entra na fase em que, biologicamente falando, o corpo pede mais horas de sono. É quando... zás! Uma cúpula de burocratas decide que, a partir de agora, 5ª série, você passará a estudar pela manhã, acordando às 6 da matina.

O quê, exatamente, motiva a insanidade destas duas situações? Primeiro palpite: sadismo (com toques de vingança); o discurso, você já conhece: “eu sofri, foi bom para mim, agora é a sua vez”. O segundo: a Síndrome da Pequena Autoridade (SPA), que acomete não apenas professores e pedagogos, mas gente muito comum, como zelador de edifício. O Juanito, que se revela quando lhe é dado um carguito.

Um possível terceiro motivo, mais prosaico – a pura inércia, a vida em estado de sonambulismo: “Ora, se tem funcionado assim há 250 anos, mudar pra quê?”.

Adélia Prado: "Quando a escola acabar, quero nascer outra vez".