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6 de julho de 2012

A literatura e a passarela

Revista literária internacional, em sua edição brasileira, reúne um júri que elege os 20 maiores escritores jovens brasileiros (com menos de 40 anos).

Eu adoraria saber qual é a diferença fundamental entre esta eleição e um concurso de Miss (Brasil ou Universo).

1 de julho de 2012

Um livro

Acaba de chegar às livrarias: Guia Lonely Planet – Londres (Ed. Globo), do qual fui um dos tradutores. Um dos desafios mais interessantes que já enfrentei. A sofisticação da linguagem no original é de impressionar. Um belo projeto gráfico, resultando num livro que, além das dicas bacanas que traz, dá gosto de folhear. Taí, se você estiver esquentando as turbinas para acompanhar os Jogos Olímpicos, uma boa pedida.


Em tempo: outro guia desta série sairá nos próximos meses. Na época do lançamento, farei alguns comentários sobre a experiência de traduzi-lo.

12 de junho de 2012

Dia dos Namorados

Pra mim, sempre foi um mistério que alguém, num dia como o de hoje, fique choramingando pelos cantos por não ter ao lado um(a) pombinho(a). Sofrer de amor pela perda do(a) amado(a)? Tão misterioso quanto.


Eis que, relendo um livro de P. G. Wodehouse, deparo com um trecho oportuno, verdadeiro bálsamo pra quem leva esse tipo de coisa a sério. Nele, Reggie, o narrador, reencontra sua ex-namorada, anos depois. Compartilhando com vocês (texto original: livro sem tradução para o português).

‘Well, fancy meeting you here, Reggie!’

I saw this was the right attitude. After all, the dead past is the dead past. I mean to say, the heavy stuff was over between us. At the time when she had severed relations, the thing had, of course, stuck the gaff into me to quite a goodish extent. I won’t say that I had not been able to sleep or touch food, because I’ve always slept like a log and taken my three square a day, and not even this tragedy could break the habit of a lifetime, but I certainly had felt a bit caught in the machinery. Sombre, if you know what I mean, and unsettled, and rather inclined to read Portuguese Love Sonnets and smoke too much. But I had got over all that ages ago, and we could now meet on a calm, friendly footing.

Laughing Gas, de P. G. Wodehouse, Penguin Books, 1936.



9 de abril de 2012

Façam o que digo...

“Em Cholame, a cerca de 40km de Paso Robles via Hwy 46, há um memorial, próximo ao local onde James Dean, o astro de Juventude Transviada, teve um acidente fatal com seu Porsche, em 30/9/1955, aos 24 anos. Ironicamente, o ator participara havia pouco de uma campanha publicitária na TV, em que afirmava: ‘A estrada não é lugar para dirigir em velocidade. Isso é um verdadeiro assassinato. Lembre-se, dirija com segurança. A vida que você está salvando pode ser a minha’”.

Sei lá por que quis compartilhar o trecho acima, de um livro (*). Ou melhor: desconfio, sim. Por deparar, dia após dia e cada vez mais, com gente virtuosa. Nas redes sociais, nas ruas, onde for. Só gente boa, gente bacana, querendo salvar o mundo. Virtude para consumo externo. Com discurso que convence tanto quanto enredo de telenovela.

(*) Livro que estou traduzindo. Transcrevo assim mesmo, sem contexto. Pois prometi dar detalhes a respeito quando ele tiver sido publicado.

28 de março de 2012

Millôr e as traduções

Ele vai fazer falta. Como homenagem, a lembrança de algumas de suas “traduções televisivas”.

1. Questo oro é di lei? – Isto é ouro de lei?

2. Rez-de-chaussée – O rei do calçado.

3. Consummatum est – Consumação incluída.

4. Cover girl – A moça da cobertura

5. Cogito, ergo sum – Cogito de levantar uma gaita.

6. Dolce far niente – Não tem sobremesa.


Millôr definitivoA bíblia do caos, L&PM, 1994.

10 de março de 2012

Submerso

Nestes dias, pensei várias vezes em vir aqui batucar algumas linhas, comentar coisas como, por exemplo, o recente artigo de Luís Giron na revista Época, sobre o trabalho dos tradutores, e a repercussão que o texto tem tido (caso tenha interesse, dê uma espiadela no Facebook, no portal de Denise Bottmann).

Fato é que a tradução bola-da-vez não me deixa pensar noutro assunto. Ao deparar com a sofisticação da linguagem dos autores deste livro, minha primeira reação foi

Pooooooatzzz! Será que consigo encarar?

Mas é esse frio na barriga inicial que me leva adiante. Sempre. Sem ele, seria o tédio total. Santo desafio, Batman!, como diria o menino-prodígio.

Taí, está é apenas uma satisfação a você, teimoso leitor, que insiste em passar por aqui, ver se tem algo de novo. Estou completamente atolado, mas logo volto à superfície. E, mais adiante, falo deste livro e da experiência de traduzi-lo.

11 de fevereiro de 2012

A arte de lidar com o ego

1.       Stardust Memories, de Woody Allen (Memórias, na infeliz tradução brasileira, ou Recordações, na versão portuguesa), de 1980.
2.      Valter Ego, personagem de Angeli, anos 1980.
3.      Beatriz, livro de Cristóvão Tezza (Ed. Record), de 2011.

O que têm em comum, as três criações?
Vejamos. O filme que W. Allen lançara um ano antes, Manhattan, foi elevado à categoria de cult. O diretor nunca foi tão badalado e assediado. No ano seguinte, tematiza em Stardust Memories a transformação de um diretor em celebridade do mundo do cinema. Tirando um tremendo sarro do episódio todo, para deleite de quem o acompanha, sabe de sua aversão aos holofotes e conhece seu autodeboche característico.
Valter Ego. Angeli, numa entrevista dos anos 90, se a memória não me trai, comenta o contexto em que se deu a criação do personagem. Diz que estava num momento de pico na carreira profissional, e estava começando a se achar o maioral. Para poder lidar com as ilusões proporcionadas pela paparicação generalizada e pela fama (lembram-se do baita sucesso do gibi Chiclete com Banana, anos 80?), deu vida ao topetudo Valter Ego.   
Cristóvão Tezza. Seu livro O filho eterno, de 2007, rapou todos os prêmios literários do ano seguinte. O escritor ganhou projeção nacional, que aliás não se limitou ao Brasil. A obra foi vertida para o inglês (por Alison Entrekin, a mesma que verteu Cidade de Deus) e publicada pela Ed. Scribe, na Austrália. Pois bem, em 2011, Tezza publica Beatriz. Logo nas primeiras páginas, a longa e impactante fala do escritor-personagem Paulo Donetti (uma impiedosa autocrítica) diante da plateia de um evento literário faz um contraponto na medida justa à situação vivida pelo escritor, de ter sido alçado ao status de celebridade.
Como veem, o que acabo de escrever não passa de um aperitivo. Assistam ao filme. Revisitem as tirinhas de Angeli. Leiam ambos os livros de Tezza. Belos exemplos da habilidade destes artistas para lidar com o fumacê produzido pelo ego.

24 de janeiro de 2012

Elogio à dificuldade

Encontro um amigo que, no meio da conversa, faz o comentário:
– Meu emprego está longe de ser meu sonho de consumo, mas... eu ganho bem, e além disso, o trabalho é fácil.
No dia seguinte, o universo me sopra a resposta que eu não dei a ele:
“... Os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-nos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser (...). Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita”.
Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke (trad. Paulo Rónai).

19 de janeiro de 2012

Uma entrevista com Drummond

Entrevista com Carlos Drummond de Andrade, por Nanete Neves, em 1977. O poeta tinha 75 anos. Retirada daqui.
1.  O que a vida lhe ensinou até agora?
Creio que a vida terá me ensinado o que normalmente ensina a qualquer um: a abrir mão de determinadas ilusões, a olhar com maior indulgência as pessoas, a buscar compreender melhor os fatos. Um misto de indulgência e desencanto. Acho que consegui mais ou menos este resultado, sem renunciar a alguns valores básicos: o respeito à personalidade humana e o amor à liberdade. Não estou me gabando disto. Estou rendendo graças à vida, que não me levou a abrir mão desses valores.

2. Qual a fórmula para se viver aparentemente afastado dos outros, e ao mesmo tempo mostrar no que escreve uma participação e observação tão ativas?
Não me considero afastado dos outros, mesmo aparentemente. Saio invariavelmente à rua todos os dias, sou encontrável no ônibus, na livraria, no café, no papo de rua, na Biblioteca Nacional e pelo telefone. Apenas não apareço em festas e reuniões, que me atordoam um pouco. E se não recebo muito em casa, é porque ela é também meu local de trabalho. E me comunico com muitos amigos, leitores e estudantes, por meio de cartas. Gosto de responder cartas, acho isso uma obrigação natural. Além disso, mantenho há 23 anos uma coluna de jornal, o que é uma forma de conversar com o maior número de pessoas ao mesmo tempo. Pessoas que tanto aprovam como desaprovam o que lhes digo, e que costumam exprimir suas reações. Acontece que muita gente pensa que devemos estar sempre de plantão para atendê-las. Infelizmente a vida não é desta opinião, e limita com avareza as nossas horas.

3.  O poeta Drummond acredita que os jovens estejam se afastando da literatura?
Não tenho elementos para afirmar ou negar que os jovens estejam se afastando da literatura. Se eles lêem pouco, pelo menos vivem muito a vida intensa de hoje. E o que está mais ao alcance deles é a imagem e o som, não a letra impressa. Há um problema de ensino, um problema de educação, um problema de economia, um problema de ordem social, tantos problemas em torno da questão jovem e leitura. Eu penso que nós não estamos sabendo o que fazer diante da juventude, e ela muito menos sabe o que vai fazer. O caso da leitura é só um detalhe da imensa questão geral. E se os mais velhos reciclassem a sua sabedoria?

4.  Qual a sua mensagem aos jovens de sua nação?
Não tenho mensagem alguma para os moços. Não sou político nem educador nem reformador. Eu gostaria de ser moço também, mas não gostaria de receber mensagens dos velhos.
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29 de dezembro de 2011

Feliz Ano Velho

Não é mera frase de efeito. Como você bem sabe, este é o nome do romance livro de estreia (autobiográfico) de Marcelo Rubens Paiva, que acabo de ler. Uma prosa deliciosa, num relato leve, bem humorado, sem qualquer frescura estilística. Sem a mínima dose de autopiedade. Altamente recomendável para todos aqueles que têm a tendência de encarnar o papel de vítima.
Livraço. E pensar que o cara só tinha 20 anos ao escrever aquilo.
Um belo modo de terminar o ano.
Até mais.

14 de dezembro de 2011

Led Zeppelin

Descobri o grupo aos 14 anos, por intermédio de um amigo que era vidrado nos caras. Ele chegava a deixar o cabelo parecido com o de Robert Plant. Botava os LPs pra tocar, e ficava dizendo: “Ouve só isso, cara!”. E eu... “É mesmo, muito bom”. Sem grande convicção.
Enquanto esse meu amigo mergulhava de cabeça no rock’n’roll, o caçula dos Fragoso recebia doses cavalares de MPB em casa. O Led, portanto, nunca fez muito minha cabeça. Diferentemente do Pink Floyd, por exemplo. Banda que sempre me impressionou muito.
Corte. Três décadas mais tarde. Na caixa de e-mails, pipoca o convite do editor: tradução de um livro sobre o Led Zeppelin. Topa?
Eita, como não?!
Prazo apertado, dividimos o bolo da tradução. O resultado, aí está, recém-saído da fornalha:
Whole Lotta Led Zeppelin – A história ilustrada da banda mais pesada de todos os tempos, de Jon Bream (org.). Tradução de Gustavo Mesquita, Anna Paola Monteiro e deste escriba. Editora Agir.

Atualização: estive hoje na livraria em Sampa e folheei o livro. Putisgrila!!! Que maravilha de edição. De encher os olhos. Deu gana de começar a ouvir os caras.

16 de novembro de 2011

Pela volta de Escobar

Eis o post que venho tentando colocar no ar desde o início da tarde, e que minha conexão 3G – também conhecida como segura-na-mão-de-deus-e-vai – só agora permitiu.
***
Dia desses, ela confessou que sua atividade – sobretudo as falas em público – é um “ato de fé”. Encarar a plateia não é uma situação que lhe dá, digamos, espasmos de prazer.
Meses atrás, em Paraty, ela esteve sob os holofotes. Mas, num acesso dos “cinco minutos”, decidiu inovar no roteiro. Munida de um laptop e do powerpoint, trouxe Escobar de volta. Sim, o felino que arrebatou o público há mais de dois anos, no blog dela.
Súbito, Escobar e sua turma ganham vida novamente. A autora comenta um e outro aspecto sobre o nascimento da série, seu momento criativo etc, enquanto o público, olhos grudados no telão, vai ao delírio.
Parêntese: você só entenderá o sentido disso tudo quando vir as imagens, quando ler os textos que as acompanham.
A partir dali, a conversa poderia enveredar pelos clássicos da literatura ocidental, pela análise da influência de Justin Bieber na literatura infanto-juvenil ou por dicas de jardinagem. Pouco importava: o público já tinha sido fisgado.
Daqui a pouco, às 20h, no Sesc Belenzinho, ela (quem? Ora, a Mulher, claro) volta a encontrar seus leitores. Abandonados, meio jururus, mas esperançosos, os fãs clamam: Volta, Escobar!!

26 de setembro de 2011

O rebelde

Neste livro, Osho faz uma longa e detalhada caracterização dos três tipos de pessoas dispostas a "mudar o mundo": o reformista, o revolucionário e o rebelde. O trecho abaixo é um retrato que traduz com enorme fidelidade o que tem sido a minha busca.
“As qualidades do rebelde são multidimensionais. Primeiro, o rebelde não acredita em nada a não ser na própria experiência. A verdade dele é sua única verdade: nenhum profeta, nenhum messias, nenhum salvador, nenhuma santa escritura, nenhuma tradição antiga pode lhe dar a verdade. (...)
Um rebelde respeita sua própria independência e também respeita a independência de todas as outras pessoas. Ele respeita a sua própria divindade e respeita a divindade de todo o universo. Todo o universo é seu templo – é por isso que ele abandonou os pequenos templos feitos pelo homem. Todo o universo são suas sagradas escrituras – é por isso que ele abandonou todas as sagradas escrituras escritas pelo homem. Mas não é por arrogância, é para empreender uma humilde busca. O rebelde é tão inocente quanto uma criança.
A segunda dimensão será não viver no passado, que não existe mais, e não viver no futuro, que não existe ainda, mas viver no presente com a máxima consciência e espírito alerta que se possa conseguir. Em outras palavras, viver consciente no momento. (...)
A terceira dimensão é que o rebelde não está interessado em dominar os outros. Ele não tem avidez pelo poder, porque essa é a coisa mais feia do mundo. (...) É essa avidez pelo poder que acaba levando aos conflitos, às competições, à inveja e finalmente às guerras. (...)
O rebelde penetra no seu mundo interior de olhos abertos, sem nenhuma ideia do que está procurando. Ele continua polindo sua inteligência. Continua tornando seu silêncio mais profundo, sua meditação mais profunda, para que o que quer que esteja oculto dentro dele venha à superfície; mas ele não tem ideias preconcebidas sobre o que está procurando.
Ele é basicamente um agnóstico. Essa palavra tem que ser lembrada, pois ela descreve uma das qualidades mais básicas. Existem crentes que acreditam em Deus, existem ateus que não acreditam em Deus e existem agnósticos que simplesmente dizem, ‘Não sabemos ainda. Vamos buscar, então vamos ver. Não podemos dizer nada antes de termos procurado em todos os recônditos do nosso ser’. O rebelde começa com ‘eu não sei’. É por isso que eu digo que ele é como uma criança pequena, inocente”.
Transformando crises em oportunidades, de Osho. Ed. Cultrix, tradução de Denise C. Rocha Delela.

19 de setembro de 2011

Badalação

Matéria do Suplemento Literário do Estadão aborda a ansiedade em torno do resultado do Man Booker Prize, “o mais prestigioso prêmio literário da língua inglesa”, que será anunciado em outubro. Bem a propósito: O menino que odiava mentira, de M. J. Hyland (Companhia das Letras, tradução de Angela Pessoa), que acabo de ler, foi finalista deste prêmio recentemente. Comprei atraído pelo texto da orelha. A Mulher leu primeiro e devorou. Pois bem. Houve dois momentos em que a leitura ameaçou decolar, o segundo deles lá pela pág. 280. Mas não passou de ameaça. Só insisti porque a sinopse era pra lá de interessante, e paguei pra ver se seria surpreendido na reta final. Nada.
Dia desses, Anna V., editora e tradutora residente no Rio, dedicou um longo post a Liberdade, de Jonathan Franzen, e à badalação em torno da obra. Quando um livro vira unanimidade e ganha comentários como “O livro do ano”, e autor ganha capa da Time etc, é de desconfiar. Vale ler o post-resenha de Anna, que caminha na contramão do que todos andam dizendo.
Cânone da literatura ocidental? Clássicos que não posso deixar de ler? Balela. Mais vale confiar no próprio faro e sair bailando no Bloco do Eu Sozinho.

15 de agosto de 2011

Show involuntário

“As mãos de um violonista são totalmente diferentes uma das outras. A esquerda tem um trabalho árduo, apertando e deslizando sobre as cordas. A direita, tarefas quase microscópicas, criando efeitos miniaturizados que dependem muito das unhas. Isto faz com que a esquerda tenha um aspecto mais másculo e a direita uma aparência feminina, até mesmo por causa das unhas.
(...)
Um dia, no metrô de Paris, apinhado, discutíamos [Oscar Cárceres e eu] os formatos de nossas unhas. As minhas, curtas e triangulares; as dele, enormes, longas e curvas. Comparávamos as mãos e, para isso, éramos obrigados a empalmar a mão um do outro. De repente, percebo. Estávamos dando um ‘show’ completo. Dois marmanjos comparando suas mãos e, ainda por cima, num dialeto incompreensível para aqueles franceses voltando do trabalho.”
Da crônica Ode às mãos, em Mentiras... ou não? – Uma quase autobiografia, de Turibio Santos (Jorge Zahar Editor).

10 de agosto de 2011

O nazareno padece das traduções

“Dizem que, quando Jesus ressuscitou após a crucificação, a primeira pessoa que o viu vivo foi Maria Madalena. Ela o amava imensamente. Correu em direção a ele. O Novo Testamento narra que Jesus disse: ‘Não me toque’. Tenho minhas desconfianças de que ele realmente tenha dito isso. Não parece certo. Alguma coisa está errada aí. Claro que o papa pode dizer: ‘Não me toque’, mas Jesus... é quase impossível. Por isso, tentei pesquisar o original. No texto original, em grego, a palavra pode significar tocar ou apegar-se. Encontrei a chave. Jesus disse: ‘Não se apegue a mim’, mas os tradutores interpretaram como ‘Não me toque’. O intérprete usou a própria mente para a tradução. Jesus deve ter dito ‘Não se apegue a mim’ porque, se existe confiança, não há apego; se há amor, não há apego. Você simplesmente partilha, sem se apegar; partilha em profundo relaxamento.”
A música mais antiga do universo, de Osho. Tradução de Marcos Malvezzi Leal. Verus, 2009.

5 de agosto de 2011

No início...

... é um pouco difícil, mesmo.

3 de agosto de 2011

Mistérios

Em meio à infinidade de livros e discos sobre os quais se pode opinar, e cujas qualidades podem ser destacadas, o que leva determinados resenhistas a escolher um para descer o sarrafo?

27 de junho de 2011

A era da ilusão

Um aspecto que me estimula muito, no trabalho de tradução, é a diversidade dos temas. Psicologia, educação, música popular, história, sociologia, auto-ajuda, proliferação nuclear, eis alguns assuntos pelos quais passeei. Descobrir o tema do livro seguinte apenas na véspera só faz realçar o gosto da descoberta.

Acaba de ser lançado o penúltimo que traduzi (em parceria com Elvira Serapicos): A era da ilusão, de Mohamed ElBaradei (Ed. Leya Brasil). Entre 1997 e 2009, ElBaradei foi o Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica, órgão da ONU, e juntamente com a AIEA, recebeu o Nobel da Paz em 2005 por seu trabalho.

Narra sua experiência nos bastidores da política internacional, em países como o Iraque, o Irã, Paquistão e Coreia do Sul. O testemunho do autor contém uma série de elementos históricos que ajudam a desconstruir por completo a farsa montada pelo governo Bush para justificar a Guerra no Iraque. Revela com detalhes a prática deliberada de dissimulação, de fraude, de ocultamento da parte dos governos destes países, no que diz respeito à política de proliferação nuclear (nesse sentido, o título da edição portuguesa do livro, Era da Mentira, tradução de Age of Deception, é igualmente oportuno). Os obstáculos com que depara, em seu trabalho em prol da não-proliferação nuclear, deixam claro os inúmeros interesses dos Estados, mas sobretudo o flagrante desequilíbrio de forças entre os países detentores de energia e armas nucleares e os que não as possuem. Em meio aos interesses conflitantes, a tentativa de conciliação e de isenção da parte da Agência, que embora seja um órgão da ONU, muitas vezes se vê limitada ou mesmo impotente diante do poder dos governos.

Um livro que, além do desafio inerente – um enorme estímulo para qualquer trabalho de (re)criação – trouxe consigo uma considerável dose de responsabilidade: me/nos transformar em veículo de uma voz de grande importância no atual cenário político mundial.


22 de junho de 2011

Célebres e anônimos

“Enquanto a fama bloqueia e constringe, a obscuridade envolve a pessoa como se fosse uma névoa; a obscuridade é escura, ampla e livre; a obscuridade permite que a mente trace seu caminho sem encontrar obstáculos. Sobre o indivíduo obscuro pousa a impregnação suave das trevas. Ninguém sabe onde ele vai nem de onde está vindo. Ele pode ir em busca da verdade e proclamá-la; ele é o único que é de fato livre; o único que é verdadeiro, o único que experimenta a paz”. Virginia Woolf, citada num post de Braulio Tavares (tradução de...?).

“Jesus disse inúmeras vezes: ‘Os últimos serão os primeiros’. (...) Se você é o último, todos o deixam em paz, ninguém o perturba, você pode ser simplesmente você mesmo. E quando você está disposto a ser o último, pode ficar no presente – do contrário, não. Se você quiser ser o primeiro, terá de ficar no futuro, porque deverá pensar: ‘Como serei o primeiro? Como tirar de lá as pessoas que já estão lá, e arrumar um lugar para mim: Como lutar? Como manejar? O que fazer? O que não fazer?’. Você estará no futuro. Tentar ser o primeiro é viver no futuro: se você quiser ser o primeiro, terá de projetar, se preocupar com o futuro. E de onde tirará suas ideias? Do passado. Assim, você permanecerá no passado e no futuro, mas perderá o presente”. Osho, A flauta nos lábios de Deus (Verus, tradução de Marcos Malvezzi Leal).