18 de abril de 2011

Da escola, de síndromes e quetais

Não basta que o cidadão padeça durante seis horas diárias no banco escolar. (Eu disse “seis”? Por enquanto, pois a moda que começa a pegar é escola em tempo integral. Quanto mais longo o período em que os pais puderem estacionar os filhos, melhor). Seis horas é pouco: é preciso mantê-los ocupados, fora da escola. E dá-lhes um caminhão de tarefas (além do judô, inglês, computação, natação, teatro e do escambau), até mesmo nas férias.

Você completa 11 anos, entra na fase em que, biologicamente falando, o corpo pede mais horas de sono. É quando... zás! Uma cúpula de burocratas decide que, a partir de agora, 5ª série, você passará a estudar pela manhã, acordando às 6 da matina.

O quê, exatamente, motiva a insanidade destas duas situações? Primeiro palpite: sadismo (com toques de vingança); o discurso, você já conhece: “eu sofri, foi bom para mim, agora é a sua vez”. O segundo: a Síndrome da Pequena Autoridade (SPA), que acomete não apenas professores e pedagogos, mas gente muito comum, como zelador de edifício. O Juanito, que se revela quando lhe é dado um carguito.

Um possível terceiro motivo, mais prosaico – a pura inércia, a vida em estado de sonambulismo: “Ora, se tem funcionado assim há 250 anos, mudar pra quê?”.

Adélia Prado: "Quando a escola acabar, quero nascer outra vez".






15 de abril de 2011

Tradução e manipulação

“Desde então Jesus começou a pregar e a dizer: ‘Arrependei-vos, pois o reino de Deus está próximo (Mateus, 4)”.

“A verdadeira palavra em hebraico para ‘arrepender’ é teshuvah. Teshuvah significa ‘retornar’ e também ‘responder’. Ambos os significados são belos. Retornar a Deus é responder a ele.
(...)
Ouça a frase, quando eu digo assim: ‘Retorne, pois o reino dos céus está próximo’. Toda condenação, todo pecado e todos os absurdos que criaram culpa no homem desaparecem: apenas com a mudança de uma única palavra traduzida corretamente. Uma única palavra pode ser significativa. Todo o cristianismo desaparecerá se, em vez de ‘arrepender’, a tradução for ‘retornar’. Todas as igrejas, o Vaticano, tudo desaparecerá, porque eles dependem do arrependimento.
(...)
Jesus nunca disse ‘arrependa-se’. Ele teria rido da palavra, porque a coisa toda foi corrompida por esta palavra. As igrejas sabem perfeitamente bem que a palavra é uma tradução errada, mas continuam insistindo nela, porque ela se tornou seu fundamento. Retornar é tão simples: depende de você e de seu Deus; nenhum mediador é necessário, nenhum agente é necessário”.

Osho, Palavras de fogo – Reflexões sobre Jesus de Nazaré, tradução de Anand Samashti, Ed. Verus.


12 de abril de 2011

Drops rurais

Flashes do dia a dia, que fazem o deleite dos sentidos.

1.       O azul inclassificável da nova borboleta que invade o pedaço.
2.      O voo rasante do tucano, que tira uma fina de minha orelha, enquanto penduro roupas no varal.
3.      O galho do abacateiro vem abaixo, com o peso dos frutos. No chão, quatorze deles.
4.      Enquanto cantamos em volta da fogueira, uma cigarra decide fazer o contraponto. Só que dentro da casa.
5.      O retorno discreto do pica-pau.
6.      O inebriante cheiro de grama recém-cortada. Que só se equipara ao aroma de bosta das vacas do curral do kibutz, marca indelével em minha memória olfativa.










11 de abril de 2011

Musa única

Comovente artigo de Patrícia Palumbo, no jornal de sábado, sobre a música como forma de comunicação com o Divino. Texto que releva uma generosidade rara em relação aos músicos de modo geral – virtude que ela já deixara registrada em seu livro de entrevistas, Vozes do Brasil.

Horas depois, assisto As melhores coisas do mundo, de Laís Bodansky. Filme absurdamente sóbrio, sem a mínima afetação. Nele, a música é quase um personagem e se revela essencial para que os adolescentes consigam comunicar emoções.

Um baita dum blablablá, pode parecer à leitora. Mas para quem está envolvido com música até a medula (e começou a dedilhar o violão ainda na fase teen), essas “sincs” não têm nada de banal.

8 de abril de 2011

Uma tradução

Em sua edição original, este livrinho foi classificado com o simpático nome de “Popular Psychology”. Por aqui, sai numa série chamada “Pensamento Eficaz”. Curti muito traduzir. Revivi alguns dos (poucos) bons momentos passados na escola.
Recomendo, não apenas aos fãs da matemática, mas também às vítimas d’algum trauma com os números. Já nas livrarias:
Aumente sua habilidade com os números – Maneiras de fazer contas com mais agilidade, de Andrew Jeffrey. Ed. Publifolha, 2011.

6 de abril de 2011

O passado perfeito

Tem um quê de acaciano, este post, mas vá lá. Para um tempo verbal do passado do inglês, nossa língua apresenta três possibilidades. I had done pode virar eu tinha feito, eu havia feito ou eu fizera. É o três-em-um linguístico.
Taí, a diversão do tradutor. Atentar para a variação. A depender do contexto, caberá mui bem, a terceira destas opções. Embora já extinta da língua oral, é perfeitamente adequada à escrita, e ao registro formal. Eu tinha + particípio, por sua vez, transmite naturalidade, mas seu uso excessivo corre o risco de encher o saco do leitor.
Sem falar dos vários casos em que o “passado perfeito” deles vira passado simples, no vernáculo. Ilustrando: “When he arrived, I had already been here”. Se, ao traduzir, você tascar um “eu já estivera”, dança.
Tropecei inúmeras vezes neste tempo verbal, na mais recente tradução. Um bom motivo para manter afiados, o radar e o ouvido (impiedoso, diante de certas palavras e combinações).
Particularmente saborosa é a sua nomenclatura. “Passado perfeito”. Parece Proust – só falta a madeleine. O português não deixa por menos, e beira o surreal: “Pretérito mais que perfeito”. Transcendeu o próprio Criador. É o passado com um plus a mais, como diria a moçada da publicidade.

4 de abril de 2011

P. G. Wodehouse

Já fiz menção a este autor inglês, um de meus prediletos. Não há muito o que dizer dele, que já não tenha sido comentado com propriedade. Deixo, então, uma palinha para o leitor. A cena, uma prosaica briga entre cães.

“There is about any dog fight a wild, gusty fury which affects the average mortal with something of the helplessness induced by some vast clashing of the elements. It seems so outside one’s jurisdiction. One is oppressed with a sense of the futility of interference. And this was no ordinary dog fight. It was a stunning mêlée, which would have excited favourable comment even among the blasé residents of a Negro quarter or the not easily-pleased critics of a Lancashire mining-village. From all over the beach dogs of every size, breed and colour were racing to the scene: and while some of these merely remained in the ringside seats and barked, a considerable proportion immediately started fighting one another on general principles, well content to be in action without bothering about first causes”.
The Adventures of Sally, P.G. Wodehouse, Penguin.